A regra · Referência
Celso Cunha: como consultar a Nova Gramática do Português Contemporâneo
Por Redação Português do Dia · Norma · Leitura de 11 minutos

Neste artigo
- O que a consulta resolve
- Por onde entrar, sem ler do começo
- O exemplo literário, e o que ele prova
- Onde a tradição normativa diverge
- Por que a questão cita gramático
- Quem é quem na estante de referência
- A nomenclatura que padronizou o vocabulário do ensino
- O que uma gramática de referência não faz
- Perguntas frequentes
Quem procura por Celso Cunha quase sempre está procurando por um livro: a Nova Gramática do Português Contemporâneo, escrita por Celso Cunha e por Lindley Cintra.
A obra saiu a quatro mãos, com um autor brasileiro e um português, e o arranjo explica o alcance dela: a descrição cobre o padrão culto do português nas duas margens, e não o de um país só.
Ela é uma das duas gramáticas de referência mais citadas no Brasil. A outra é a Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara. O que vem abaixo é sobre consultar as duas, e não sobre a vida de quem escreveu.
O que a consulta resolve
Uma gramática de referência responde três tipos de pergunta, e cada tipo mora num lugar diferente do volume.
- a forma: como se conjuga o verbo, qual é o plural, qual é o feminino, qual preposição a palavra pede.
- a função: qual é o nome da peça dentro da frase e o que ela está fazendo ali.
- o uso: se a construção é corrente, se pertence ao registro formal, se aparece muito numa variedade e pouco em outra.
O terceiro tipo é o que separa a Nova Gramática do Português Contemporâneo de um manual de regras. Ela descreve o padrão culto e mostra a construção dentro de textos, em vez de listar a forma aprovada e parar por ali.
Teste de bolso: quando a sua dúvida cabe na pergunta pode ou não pode, um manual curto resolve. Quando ela cabe na pergunta por que a norma pede assim, a gramática de referência é o lugar.
Por onde entrar, sem ler do começo
Gramática de referência não se lê em ordem. Ela se consulta, e a porta certa fica no fim do volume, no índice remissivo, e não no sumário do começo.
O caminho que funciona tem três passos.
- procure no índice remissivo a palavra concreta da sua dúvida, e não o nome da matéria. Procure crase, e não acentuação; procure anexo, e não concordância nominal.
- na página indicada, leia o exemplo antes da explicação. O exemplo mostra a construção inteira em duas linhas e já resolve boa parte das consultas.
- leia a nota de rodapé e a observação em corpo menor. É ali que a obra registra a variação, o uso brasileiro e a exceção que o corpo do texto deixou de fora.
Teste de bolso: quando você entrou pelo sumário e leu quatro páginas antes de achar a resposta, entrou pela porta errada. Volte ao índice remissivo com a palavra exata da frase que travou.
A Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, se consulta do mesmo jeito, com a mesma entrada por palavra.
O exemplo literário, e o que ele prova
A Nova Gramática do Português Contemporâneo apoia a descrição em passagens de autores, do Brasil, de Portugal e da África de língua portuguesa. A escolha tem consequência prática na hora de copiar uma construção.
O exemplo prova que a construção existe e circula no padrão culto escrito. Ele não prova que a construção é a mais corrente no português do Brasil de hoje.
Um trecho tirado de autor português pode trazer colocação de pronome que soa estranha aqui, e o estranhamento não é defeito de nenhum dos dois lados. São duas normas cultas, descritas no mesmo volume, e a obra deixa a origem de cada passagem identificada.
Teste de bolso: antes de levar a construção do exemplo para a sua frase, confira de quem é o trecho. A assinatura embaixo do exemplo é o dado que faltava.
Onde a tradição normativa diverge
Gramático não fala em coro, e a divergência costuma cair na análise, mais do que na forma aceita. Três pontos conhecidos.
Adjunto adnominal e complemento nominal. As duas funções aparecem com a mesma cara na frase, sempre com preposição no meio, e a classificação de um mesmo termo muda de analista para analista.
A frase do tipo alugam-se casas. Que o verbo vai para o plural é pacífico na tradição normativa. O que divide os gramáticos é o nome da análise: parte lê casas como sujeito de uma construção passiva, parte lê o se como marca de sujeito indeterminado.
A nomenclatura verbal. A mesma forma de cantaria aparece como futuro do pretérito na nomenclatura escolar brasileira e como condicional na tradição portuguesa. A Nomenclatura Gramatical Brasileira, que é o acordo de terminologia adotado no ensino daqui, é o motivo de os dois nomes conviverem.
Teste de bolso: quando duas gramáticas discordam, olhe o que elas fazem com a frase antes de olhar o nome que elas dão. A forma escrita costuma sair igual dos dois lados, e a diferença fica no rótulo.
Por que a questão cita gramático
O enunciado que nomeia uma gramática está fazendo uma coisa só: fechando a porta da divergência.
Quando o ponto é pacífico, a questão não precisa de fonte e não cita ninguém. Quando o ponto tem duas leituras na tradição, a questão nomeia a obra, e a partir dali ela cobra a leitura daquela obra, e não a leitura que você prefere.
A consequência prática é curta: fonte citada no enunciado é instrução de qual análise vale ali dentro. Sem fonte citada, vale o que a tradição registra sem discussão.
Teste de bolso: leia o enunciado atrás do nome de uma obra antes de escolher a alternativa. O nome muda a resposta em questão de classificação, e não muda nada em questão de forma.
Quem é quem na estante de referência
O português brasileiro tem mais de uma obra de referência, e cada uma serve melhor a um tipo de consulta. Conhecer a divisão evita comprar a errada e evita esperar de uma o que só a outra entrega.
A Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, descreve o padrão culto das duas margens do Atlântico e apoia a exposição em passagens de autores. É a escolha para entender por que a norma pede determinada construção e para ver a variação registrada.
A Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, é a mais próxima da tradição normativa clássica, com organização didática e forte presença em concurso. É a escolha quando a pergunta é qual forma a norma prescreve.
A Gramática Normativa da Língua Portuguesa, de Rocha Lima, é outra referência tradicional muito usada em preparação para prova, com apresentação enxuta das regras.
Fora da linha normativa existe a produção descritiva. Obras de linguistas descrevem o português brasileiro como ele funciona, incluindo a fala, sem prescrever forma. Elas são a referência quando a pergunta é o que os falantes efetivamente fazem, e não o que a escrita formal cobra.
Existem ainda os manuais de redação de grandes veículos de imprensa, que não são gramáticas: são conjuntos de decisões editoriais de uma casa, úteis como referência de padronização e sem autoridade normativa fora dela.
O critério de escolha é sempre o mesmo: identifique se a sua pergunta é sobre prescrição, sobre descrição ou sobre padronização, e a obra certa aparece sozinha.
A nomenclatura que padronizou o vocabulário do ensino
Uma peça pouco conhecida explica por que professores de escolas diferentes usam os mesmos nomes para as mesmas coisas: a nomenclatura gramatical adotada oficialmente no Brasil no fim da década de 1950.
Antes dela, cada gramático usava a própria terminologia, e o mesmo termo da frase podia receber três nomes distintos em três livros. O documento fixou uma lista de termos para uso no ensino, e as gramáticas passaram a se organizar em torno dela.
A padronização resolveu um problema e criou outro. Resolveu a comunicação entre professor, livro didático e prova. Criou uma expectativa de que a análise gramatical seria unívoca, quando as divergências de classificação, tratadas neste texto, continuaram existindo abaixo da terminologia comum.
Vale conhecer dois efeitos práticos. O primeiro é que a nomenclatura brasileira difere da portuguesa em vários pontos, o que explica encontrar nomes diferentes para o mesmo tempo verbal em obras dos dois países. O segundo é que ela é instrumento de ensino, e não descrição definitiva da língua: obras de linguística usam terminologia própria, mais adequada ao que descrevem.
Quando um enunciado de prova nomeia uma classificação, portanto, ele está operando dentro dessa nomenclatura, e a resposta esperada é a dela.
O que uma gramática de referência não faz
Boa parte da frustração com essas obras vem de esperar delas o que elas nunca se propuseram a entregar.
Ela não é dicionário. Significado de palavra, acepção e marca de uso são assunto de obra lexicográfica, e a gramática só trata de palavra quando ela ilustra uma estrutura.
Ela não é vocabulário ortográfico. Grafia de palavra específica, acento e hífen se conferem no vocabulário oficial. A gramática explica o sistema de acentuação; ela não lista como se escreve cada palavra do português.
Ela não é manual de estilo. Decisões sobre uso de maiúscula em cargos, formato de data, padronização de siglas e preferências de vocabulário pertencem ao manual de cada casa, e variam de veículo para veículo sem que nenhum esteja errado.
Ela não é livro de exercícios nem material de preparação. A obra descreve e organiza; treinar aplicação é trabalho de outro tipo de livro.
E ela não decide o caso concreto do seu texto. Ela informa o que a norma registra e onde a tradição diverge, e a escolha final, considerando destinatário, registro e clareza, continua com quem escreve. Daí vem a recomendação de consultar duas obras em vez de uma: a divergência entre elas é a informação que faltava.
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A gramática de referência rende mais aberta de vez em quando do que lida de ponta a ponta. Na próxima frase que travar, anote a palavra que travou, procure a palavra no índice do fim e leia o exemplo antes da explicação.
Perguntas frequentes
O que é a Nova Gramática do Português Contemporâneo?
É a gramática de referência escrita por Celso Cunha e Lindley Cintra, um brasileiro e um português, que descreve o padrão culto do português nas duas margens do Atlântico e apoia a exposição em passagens de autores do Brasil, de Portugal e da África de língua portuguesa.
Qual a diferença entre Cunha e Cintra e Bechara?
A obra de Cunha e Cintra descreve o padrão culto com registro da variação e exemplos literários, e responde bem à pergunta por que a norma pede assim. A Moderna Gramática Portuguesa, de Bechara, é mais próxima da tradição normativa clássica e responde melhor à pergunta qual forma a norma prescreve.
Como consultar uma gramática de referência?
Pelo índice remissivo do fim do volume, procurando a palavra concreta da dúvida em vez do nome da matéria: procure crase, e não acentuação. Na página indicada, leia o exemplo antes da explicação, e depois a nota de rodapé, onde a obra registra variação e exceção.
Por que os gramáticos divergem?
Porque a divergência costuma cair na análise, e não na forma aceita. Casos clássicos são a distinção entre adjunto adnominal e complemento nominal, a leitura da construção com a partícula se, e a nomenclatura verbal, com o mesmo tempo recebendo nomes diferentes no Brasil e em Portugal.
Por que algumas questões de prova citam o nome de um gramático?
Para fechar a porta da divergência. Quando o ponto é pacífico, a questão não cita fonte; quando há duas leituras na tradição, ela nomeia a obra e cobra a leitura daquela obra. Fonte citada no enunciado é instrução de qual análise vale ali dentro.
O que é a nomenclatura gramatical brasileira?
O acordo de terminologia adotado oficialmente no Brasil no fim da década de 1950, que padronizou os nomes usados no ensino. Antes dele, cada gramático usava a própria terminologia. Ele difere da nomenclatura portuguesa em vários pontos, o que explica nomes distintos para o mesmo tempo verbal.
Gramática de referência serve para resolver dúvida de escrita?
Serve para entender o sistema e conhecer as divergências, e não para tudo. Grafia de palavra se confere no vocabulário ortográfico oficial, significado no dicionário, e padronização editorial no manual de estilo da casa. A escolha final no seu texto continua sendo sua.
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