A regra · Referência
Celso Cunha: como consultar a Nova Gramática do Português Contemporâneo
Norma · Leitura de 4 minutos

Neste artigo
Quem procura por Celso Cunha quase sempre está procurando por um livro: a Nova Gramática do Português Contemporâneo, escrita por Celso Cunha e por Lindley Cintra.
A obra saiu a quatro mãos, com um autor brasileiro e um português, e o arranjo explica o alcance dela: a descrição cobre o padrão culto do português nas duas margens, e não o de um país só.
Ela é uma das duas gramáticas de referência mais citadas no Brasil. A outra é a Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara. O que vem abaixo é sobre consultar as duas, e não sobre a vida de quem escreveu.
O que a consulta resolve
Uma gramática de referência responde três tipos de pergunta, e cada tipo mora num lugar diferente do volume.
- a forma: como se conjuga o verbo, qual é o plural, qual é o feminino, qual preposição a palavra pede.
- a função: qual é o nome da peça dentro da frase e o que ela está fazendo ali.
- o uso: se a construção é corrente, se pertence ao registro formal, se aparece muito numa variedade e pouco em outra.
O terceiro tipo é o que separa a Nova Gramática do Português Contemporâneo de um manual de regras. Ela descreve o padrão culto e mostra a construção dentro de textos, em vez de listar a forma aprovada e parar por ali.
Teste de bolso: quando a sua dúvida cabe na pergunta pode ou não pode, um manual curto resolve. Quando ela cabe na pergunta por que a norma pede assim, a gramática de referência é o lugar.
Por onde entrar, sem ler do começo
Gramática de referência não se lê em ordem. Ela se consulta, e a porta certa fica no fim do volume, no índice remissivo, e não no sumário do começo.
O caminho que funciona tem três passos.
- procure no índice remissivo a palavra concreta da sua dúvida, e não o nome da matéria. Procure crase, e não acentuação; procure anexo, e não concordância nominal.
- na página indicada, leia o exemplo antes da explicação. O exemplo mostra a construção inteira em duas linhas e já resolve boa parte das consultas.
- leia a nota de rodapé e a observação em corpo menor. É ali que a obra registra a variação, o uso brasileiro e a exceção que o corpo do texto deixou de fora.
Teste de bolso: quando você entrou pelo sumário e leu quatro páginas antes de achar a resposta, entrou pela porta errada. Volte ao índice remissivo com a palavra exata da frase que travou.
A Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, se consulta do mesmo jeito, com a mesma entrada por palavra.
O exemplo literário, e o que ele prova
A Nova Gramática do Português Contemporâneo apoia a descrição em passagens de autores, do Brasil, de Portugal e da África de língua portuguesa. A escolha tem consequência prática na hora de copiar uma construção.
O exemplo prova que a construção existe e circula no padrão culto escrito. Ele não prova que a construção é a mais corrente no português do Brasil de hoje.
Um trecho tirado de autor português pode trazer colocação de pronome que soa estranha aqui, e o estranhamento não é defeito de nenhum dos dois lados. São duas normas cultas, descritas no mesmo volume, e a obra deixa a origem de cada passagem identificada.
Teste de bolso: antes de levar a construção do exemplo para a sua frase, confira de quem é o trecho. A assinatura embaixo do exemplo é o dado que faltava.
Onde a tradição normativa diverge
Gramático não fala em coro, e a divergência costuma cair na análise, mais do que na forma aceita. Três pontos conhecidos.
Adjunto adnominal e complemento nominal. As duas funções aparecem com a mesma cara na frase, sempre com preposição no meio, e a classificação de um mesmo termo muda de analista para analista.
A frase do tipo alugam-se casas. Que o verbo vai para o plural é pacífico na tradição normativa. O que divide os gramáticos é o nome da análise: parte lê casas como sujeito de uma construção passiva, parte lê o se como marca de sujeito indeterminado.
A nomenclatura verbal. A mesma forma de cantaria aparece como futuro do pretérito na nomenclatura escolar brasileira e como condicional na tradição portuguesa. A Nomenclatura Gramatical Brasileira, que é o acordo de terminologia adotado no ensino daqui, é o motivo de os dois nomes conviverem.
Teste de bolso: quando duas gramáticas discordam, olhe o que elas fazem com a frase antes de olhar o nome que elas dão. A forma escrita costuma sair igual dos dois lados, e a diferença fica no rótulo.
Por que a questão cita gramático
O enunciado que nomeia uma gramática está fazendo uma coisa só: fechando a porta da divergência.
Quando o ponto é pacífico, a questão não precisa de fonte e não cita ninguém. Quando o ponto tem duas leituras na tradição, a questão nomeia a obra, e a partir dali ela cobra a leitura daquela obra, e não a leitura que você prefere.
A consequência prática é curta: fonte citada no enunciado é instrução de qual análise vale ali dentro. Sem fonte citada, vale o que a tradição registra sem discussão.
Teste de bolso: leia o enunciado atrás do nome de uma obra antes de escolher a alternativa. O nome muda a resposta em questão de classificação, e não muda nada em questão de forma.
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A gramática de referência rende mais aberta de vez em quando do que lida de ponta a ponta. Na próxima frase que travar, anote a palavra que travou, procure a palavra no índice do fim e leia o exemplo antes da explicação.
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