A regra · Guia

Cognatas: a família de palavras que resolve a grafia na hora de escrever

Palavras · Leitura de 4 minutos

Um rolo pequeno de fita crepe sozinho numa superfície de papel claro e frio, sob a luz calma de manhã cedo que entra pela esquerda, com sombra macia caindo pra direita e o vermelho de revisão como única cor viva

Palavras cognatas são as que compartilham o mesmo radical, o pedaço que sobra quando você tira o prefixo e o sufixo.

Pedra, pedreiro, pedreira, pedregulho e apedrejar formam uma família. O radical pedr aparece nas cinco, e o sentido das cinco passa por pedra.

A família rende bem mais do que uma classificação. Ela é o atalho que resolve grafia na frase em andamento: a letra do derivado costuma ser a letra da palavra primitiva, e achar a primitiva sai mais rápido do que percorrer uma lista de exceções.

O que faz duas palavras serem da mesma família

O teste é de forma e de sentido, os dois juntos.

  • forma: tire prefixos e sufixos das duas palavras. Quando sobra o mesmo pedaço, o radical é o mesmo.
  • sentido: explique a segunda palavra usando a primeira, numa frase curta. Pedreiro é quem trabalha com pedra. Apedrejar é atirar pedra.

Quando os dois passam, as palavras são cognatas. Quando só a forma passa, a semelhança pode ser coincidência de letras, e a conferência é no dicionário.

Cognata não é sinônimo. Sinônimo é parentesco de sentido entre palavras que costumam vir de famílias diferentes. Cognata é parentesco de forma, e duas cognatas chegam a dizer o contrário uma da outra: feliz e infeliz são da mesma família e são opostas.

Teste de bolso: quando você consegue definir uma palavra usando a outra, as duas são da mesma família.

A palavra primitiva decide o s e o z

A regra que mais economiza tempo cabe numa linha: o derivado guarda a letra da palavra que o originou.

  • análise tem s, e daí vêm analisar, analisado e analista.
  • pesquisa tem s, e daí vêm pesquisar e pesquisador.
  • aviso tem s, e daí vem avisar.
  • raiz tem z, e daí vem enraizar.
  • cruz tem z, e daí vêm cruzar e cruzeiro.

O caso mais confundido é o do verbo terminado em izar e em isar. Não são dois sufixos concorrentes: o sufixo é um só, izar, e ele entra em palavra que não tem s no radical, como em real e realizar, ou em civil e civilizar. Quando a terminação aparece com s, o s já estava na primitiva, como em análise e analisar.

Teste de bolso: procure a palavra primitiva antes de escolher a letra. Quando ela tem s, o derivado tem s. Quando ela não tem, entra o sufixo com z.

Dois sufixos fixos fecham o resto. O par oso e osa vem sempre com s, como em gostoso e cheirosa. O par eza e ez, que forma substantivo a partir de adjetivo, vem sempre com z, como em belo e beleza, ou surdo e surdez.

Um limite honesto fecha a seção: a letra da palavra primitiva não sai de regra nenhuma, e a conferência dela é caso a caso, no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras. O que a família resolve é o derivado, que costuma ser a palavra em dúvida. O Acordo Ortográfico de 1990 não mexeu nessa parte: o que ele alterou foi o trema, o acento diferencial e o hífen.

O ch e o x que a família explica

A sequência en no começo da palavra costuma vir acompanhada de x: enxada, enxergar, enxerto, enxugar.

A exceção mais lembrada é encher, com ch, e a família explica a exceção inteira. Encher, enchente, enchimento e preenchimento pertencem à família de cheio, que tem ch. O prefixo entrou na frente e a letra do radical ficou onde estava.

Teste de bolso: quando aparecer en no começo e a dúvida for entre x e ch, procure uma palavra da família sem o prefixo. Quando ela tem ch, o derivado tem ch.

A mesma lógica ajuda no substantivo terminado em são e em ssão. Pretender dá pretensão, suspender dá suspensão, compreender dá compreensão. Conceder dá concessão, e imprimir dá impressão. Cada família anda junta, e a conferência da família resolve mais rápido do que a memória solta de cada palavra.

O falso cognato entre línguas

Palavra parecida em duas línguas não é promessa de sentido parecido, e a semelhança de forma engana justamente quem lê depressa.

O nome escolar do fenômeno é falso cognato, e a terminologia tem divergência declarada: parte dos estudos reserva falso cognato para pares sem parentesco de origem e usa falso amigo para qualquer par que engana. No uso escolar os dois nomes circulam pela mesma coisa, e vale saber que circulam.

Do espanhol, três que derrubam leitura rápida:

  • embarazada quer dizer grávida.
  • exquisito quer dizer saboroso, refinado.
  • oficina quer dizer escritório.

Do inglês, outros três:

  • pretend quer dizer fingir.
  • actually quer dizer na verdade.
  • parents quer dizer pais, e não parentes.

Teste de bolso: em texto de língua estrangeira, a palavra que pede conferência é a que parece portuguesa, e não a que parece difícil. A difícil você já vai procurar de qualquer jeito.

A família em três passos, no meio da frase

A dúvida de letra que aparece com a caneta no ar resolve assim.

  • separe prefixo e sufixo, e fique com o radical.
  • procure a palavra primitiva da família, a mais curta que ainda se sustenta sozinha.
  • escreva no derivado a letra da primitiva, e confira no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa quando a dúvida sobreviver aos dois passos anteriores.

A conferência leva menos tempo do que a releitura desconfiada que vem depois de escrever com medo.

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Na próxima vez que a caneta parar antes de um s, a pergunta útil não é qual regra vale. É qual é a palavra menor daquela família, e como ela se escreve.

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