A regra · Guia

Cognatas: a família de palavras que resolve a grafia na hora de escrever

Por Redação Português do Dia · Palavras · Leitura de 11 minutos

Um rolo pequeno de fita crepe sozinho numa superfície de papel claro e frio, sob a luz calma de manhã cedo que entra pela esquerda, com sombra macia caindo pra direita e o vermelho de revisão como única cor viva

Palavras cognatas são as que compartilham o mesmo radical, o pedaço que sobra quando você tira o prefixo e o sufixo.

Pedra, pedreiro, pedreira, pedregulho e apedrejar formam uma família. O radical pedr aparece nas cinco, e o sentido das cinco passa por pedra.

A família rende bem mais do que uma classificação. Ela é o atalho que resolve grafia na frase em andamento: a letra do derivado costuma ser a letra da palavra primitiva, e achar a primitiva sai mais rápido do que percorrer uma lista de exceções.

O que faz duas palavras serem da mesma família

O teste é de forma e de sentido, os dois juntos.

  • forma: tire prefixos e sufixos das duas palavras. Quando sobra o mesmo pedaço, o radical é o mesmo.
  • sentido: explique a segunda palavra usando a primeira, numa frase curta. Pedreiro é quem trabalha com pedra. Apedrejar é atirar pedra.

Quando os dois passam, as palavras são cognatas. Quando só a forma passa, a semelhança pode ser coincidência de letras, e a conferência é no dicionário.

Cognata não é sinônimo. Sinônimo é parentesco de sentido entre palavras que costumam vir de famílias diferentes. Cognata é parentesco de forma, e duas cognatas chegam a dizer o contrário uma da outra: feliz e infeliz são da mesma família e são opostas.

Teste de bolso: quando você consegue definir uma palavra usando a outra, as duas são da mesma família.

A palavra primitiva decide o s e o z

A regra que mais economiza tempo cabe numa linha: o derivado guarda a letra da palavra que o originou.

  • análise tem s, e daí vêm analisar, analisado e analista.
  • pesquisa tem s, e daí vêm pesquisar e pesquisador.
  • aviso tem s, e daí vem avisar.
  • raiz tem z, e daí vem enraizar.
  • cruz tem z, e daí vêm cruzar e cruzeiro.

O caso mais confundido é o do verbo terminado em izar e em isar. Não são dois sufixos concorrentes: o sufixo é um só, izar, e ele entra em palavra que não tem s no radical, como em real e realizar, ou em civil e civilizar. Quando a terminação aparece com s, o s já estava na primitiva, como em análise e analisar.

Teste de bolso: procure a palavra primitiva antes de escolher a letra. Quando ela tem s, o derivado tem s. Quando ela não tem, entra o sufixo com z.

Dois sufixos fixos fecham o resto. O par oso e osa vem sempre com s, como em gostoso e cheirosa. O par eza e ez, que forma substantivo a partir de adjetivo, vem sempre com z, como em belo e beleza, ou surdo e surdez.

Um limite honesto fecha a seção: a letra da palavra primitiva não sai de regra nenhuma, e a conferência dela é caso a caso, no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras. O que a família resolve é o derivado, que costuma ser a palavra em dúvida. O Acordo Ortográfico de 1990 não mexeu nessa parte: o que ele alterou foi o trema, o acento diferencial e o hífen.

O ch e o x que a família explica

A sequência en no começo da palavra costuma vir acompanhada de x: enxada, enxergar, enxerto, enxugar.

A exceção mais lembrada é encher, com ch, e a família explica a exceção inteira. Encher, enchente, enchimento e preenchimento pertencem à família de cheio, que tem ch. O prefixo entrou na frente e a letra do radical ficou onde estava.

Teste de bolso: quando aparecer en no começo e a dúvida for entre x e ch, procure uma palavra da família sem o prefixo. Quando ela tem ch, o derivado tem ch.

A mesma lógica ajuda no substantivo terminado em são e em ssão. Pretender dá pretensão, suspender dá suspensão, compreender dá compreensão. Conceder dá concessão, e imprimir dá impressão. Cada família anda junta, e a conferência da família resolve mais rápido do que a memória solta de cada palavra.

O falso cognato entre línguas

Palavra parecida em duas línguas não é promessa de sentido parecido, e a semelhança de forma engana justamente quem lê depressa.

O nome escolar do fenômeno é falso cognato, e a terminologia tem divergência declarada: parte dos estudos reserva falso cognato para pares sem parentesco de origem e usa falso amigo para qualquer par que engana. No uso escolar os dois nomes circulam pela mesma coisa, e vale saber que circulam.

Do espanhol, três que derrubam leitura rápida:

  • embarazada quer dizer grávida.
  • exquisito quer dizer saboroso, refinado.
  • oficina quer dizer escritório.

Do inglês, outros três:

  • pretend quer dizer fingir.
  • actually quer dizer na verdade.
  • parents quer dizer pais, e não parentes.

Teste de bolso: em texto de língua estrangeira, a palavra que pede conferência é a que parece portuguesa, e não a que parece difícil. A difícil você já vai procurar de qualquer jeito.

A família em três passos, no meio da frase

A dúvida de letra que aparece com a caneta no ar resolve assim.

  • separe prefixo e sufixo, e fique com o radical.
  • procure a palavra primitiva da família, a mais curta que ainda se sustenta sozinha.
  • escreva no derivado a letra da primitiva, e confira no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa quando a dúvida sobreviver aos dois passos anteriores.

A conferência leva menos tempo do que a releitura desconfiada que vem depois de escrever com medo.

Como as famílias crescem: os processos de formação

Uma família de palavras não cresce ao acaso. Ela cresce por processos com nome, e reconhecê-los explica a grafia de palavras que você nunca viu antes.

A derivação acrescenta afixos ao radical, e tem quatro tipos. Prefixal, com acréscimo à frente, como em rever e infeliz. Sufixal, com acréscimo atrás, como em pedreiro e beleza. Parassintética, com prefixo e sufixo entrando ao mesmo tempo e obrigatoriamente juntos, como em entardecer e anoitecer, em que nem entarde nem tardecer existem sozinhos. E regressiva, que corta em vez de acrescentar, formando o substantivo a partir do verbo, como em cantar e canto.

Existe ainda a derivação imprópria, em que a palavra muda de classe sem mudar de forma. O jantar, o dever e o falar são verbos usados como substantivo, e nenhuma letra se alterou.

A composição junta dois radicais. Por justaposição, quando as duas palavras se mantêm inteiras, como em passatempo e guarda-chuva. Por aglutinação, quando uma delas perde parte da forma na junção, como em planalto, de plano e alto, e em aguardente, de água e ardente.

Há ainda a redução, que corta a palavra sem alterar o sentido, como em foto e moto, e a sigla, que forma palavra nova a partir das iniciais.

O teste de bolso: identificado o processo, a grafia do resultado segue a das peças de origem, e daí vem o l único de planalto, em vez de dois.

Os radicais que abrem centenas de palavras

Boa parte do vocabulário técnico do português vem de radicais gregos e latinos que se repetem, e conhecer duas dezenas deles permite deduzir o sentido de palavras nunca vistas.

Do grego vêm bio, de vida; geo, de terra; crono, de tempo; hidro, de água; tele, de longe; foto, de luz; auto, de próprio; filo, de amigo; e antropo, de ser humano. Do lado dos sufixos, logia indica estudo; grafia indica escrita ou registro; metro indica medida; e fobia indica aversão.

Do latim vêm aqua, de água; vita, de vida; terra; manu, de mão; ped, de pé; e vor, de comer, que aparece em carnívoro e herbívoro.

Os prefixos formam o terceiro conjunto. A e an indicam ausência, como em amoral e anônimo. Anti indica oposição. Hiper indica excesso e hipo indica falta. Sub indica posição abaixo, pré indica anterioridade e pós, posterioridade. In tem dois valores distintos e engana: ele indica negação em incapaz e movimento para dentro em ingerir.

A utilidade prática é dupla. Diante de palavra desconhecida, os radicais permitem chegar ao sentido aproximado sem dicionário. E diante de dúvida de grafia, eles funcionam como a palavra primitiva desta matéria: escrita a peça de origem de um jeito, o derivado a repete.

Quando a família muda de forma no meio do caminho

Existe um grupo de palavras aparentadas em que o radical parece diferente, e a explicação é histórica: uma forma veio do latim pela boca do povo, transformada pelo uso ao longo de séculos, e a outra foi trazida depois, direto dos livros, quase sem alteração.

Os pares são numerosos e reconhecíveis: noite e noturno; leite e lácteo; água e aquático; olho e ocular; fogo e ígneo; chuva e pluvial; ouro e áureo; cheio e pleno.

Em cada par, a primeira palavra é a que atravessou os séculos na fala e chegou desgastada, e a segunda entrou depois pela via culta, mantendo a forma antiga. As duas remetem à mesma origem e formam famílias que a intuição não conecta.

O detalhe prático aparece na grafia dos derivados. Palavras técnicas costumam se formar sobre a forma culta, e não sobre a popular, o que explica por que quem estuda o leite fala em produtos lácteos, e por que a medicina do olho é oftalmologia, com radical grego, em vez de algo formado sobre olho.

Reconhecer os pares tem uma consequência de vocabulário: quem os aprende passa a decifrar termo técnico de qualquer área, porque o vocabulário especializado do português é construído quase inteiramente sobre as formas cultas, e não sobre as palavras do dia a dia.

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Na próxima vez que a caneta parar antes de um s, a pergunta útil não é qual regra vale. É qual é a palavra menor daquela família, e como ela se escreve.

Perguntas frequentes

O que são palavras cognatas?

São as que compartilham o mesmo radical, o pedaço que sobra depois de tirar prefixo e sufixo, e cujo sentido passa pela mesma ideia. Pedra, pedreiro, pedreira e apedrejar formam uma família. O teste é de forma e de sentido ao mesmo tempo.

Cognata é o mesmo que sinônimo?

Não. Sinônimo é parentesco de sentido entre palavras que costumam vir de famílias diferentes; cognata é parentesco de forma. Duas cognatas chegam a dizer o contrário uma da outra, como feliz e infeliz, que pertencem à mesma família e são opostas.

É "analisar" ou "analizar"?

Analisar, com esse, porque a palavra primitiva é análise, que tem esse. A regra que economiza tempo é essa: o derivado guarda a letra da palavra que o originou. O sufixo izar, com zê, entra apenas em palavra sem esse no radical, como em real e realizar.

Por que "encher" tem ch e "enxergar" tem x?

Porque encher pertence à família de cheio, que tem che, e o prefixo entrou na frente sem alterar a letra do radical. A sequência en no começo costuma vir com xis, como em enxada e enxugar, e a exceção se explica sempre pela família.

O que é um falso cognato?

É a palavra parecida em duas línguas com sentido diferente, como embarazada, que em espanhol quer dizer grávida, e parents, que em inglês quer dizer pais. Parte dos estudos reserva o termo falso cognato para pares sem parentesco de origem e usa falso amigo para qualquer par que engana.

Quais são os processos de formação de palavras?

Derivação, com quatro tipos, sendo prefixal, sufixal, parassintética e regressiva, além da imprópria, em que a palavra muda de classe sem mudar de forma. Composição, por justaposição ou por aglutinação. E ainda redução e formação por siglas.

Por que "leite" e "lácteo" são da mesma família?

Porque as duas remetem à mesma origem latina por caminhos diferentes: uma atravessou os séculos na fala e chegou transformada, e a outra entrou depois pela via culta, quase sem alteração. O mesmo acontece em noite e noturno, água e aquático, olho e ocular.

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