A regra · Regra
Verbo ser e verbo haver: a concordância que foge da regra geral
Concordância · Leitura de 4 minutos

Neste artigo
A regra geral cabe numa linha: o verbo concorda com o sujeito. Dois verbos escapam dela por caminhos diferentes, e são justamente os dois que aparecem na prova.
O verbo ser, em algumas situações, olha para o predicativo e deixa o sujeito de lado. O verbo haver, no sentido de existir, não tem sujeito nenhum: fica parado na terceira pessoa do singular.
O verbo fazer, quando marca tempo decorrido, entra de carona no segundo caso. Abaixo vem cada situação com a regra aplicável primeiro, o teste de bolso e a fonte normativa.
O ser que concorda com o predicativo
A regra: quando o sujeito é um pronome neutro (tudo, o, isto, aquilo e os demais da mesma série) e o predicativo está no plural, o verbo ser vai para o plural.
Aquilo eram apenas rascunhos da primeira versão.
Tudo são hipóteses antes da conferência na fonte.
A concordância com o predicativo em tais casos está registrada na Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, que descreve o plural como a solução geral. O singular também aparece em texto publicado, e a gramática registra as duas formas.
Existe um segundo caso, e ele vale mais na hora de escrever: quando um dos dois lados do verbo é pessoa ou pronome pessoal, o verbo concorda com a pessoa.
O problema somos nós.
A alegria da casa eram as netas.
Teste de bolso: cubra o pronome neutro com o dedo e leia só o que sobra depois do verbo. Se o que sobra está no plural, o verbo acompanha o plural. Havendo pronome pessoal na frase, o verbo vai atrás dele, e o resto não decide nada.
O ser de hora, data e distância
A regra: nas indicações de hora, data e distância, o verbo ser concorda com o número que aparece na expressão.
São duas horas da tarde.
É uma hora da tarde.
São vinte quilômetros até a próxima cidade.
O sujeito da frase anterior não interfere. Quem manda é a quantidade dita ali, mesmo que a frase comece por hoje, por agora ou por daqui.
Na data, a tradição aceita as duas construções. Com a palavra dia expressa, o verbo fica no singular; sem ela, o plural também tem registro em Cunha e Cintra.
Hoje é dia quatro de agosto.
Hoje são quatro de agosto.
Teste de bolso: pergunte quantos e responda em voz alta. Uma hora pede é; duas horas pedem são. O relógio e o mapa decidem o número do verbo.
O ser de preço, peso e medida
A regra: quando o predicativo é muito, pouco, mais de, menos de ou outra avaliação de quantidade, o verbo ser fica no singular.
Duzentos reais é pouco por um dicionário de mesa.
Três quilos de papel é demais para uma pasta só.
Quatro horas de sono é menos do que o corpo pede.
O sujeito está no plural e o verbo continua no singular, porque a frase avalia a quantidade inteira, e não os itens um por um. A concordância pelo predicativo em preço, peso e medida está descrita em Cunha e Cintra.
Teste de bolso: troque o número por aquela quantia, aquele peso ou aquele tempo. Se a frase fica natural no singular depois da troca, o verbo ser fica no singular.
O haver que não tem sujeito
A regra: o verbo haver, no sentido de existir, acontecer ou tempo decorrido, é impessoal. Fica na terceira pessoa do singular, e o que vem depois dele é objeto direto, não sujeito.
Havia duas dúvidas na mesma frase.
Houve duas mudanças no parágrafo final.
O termo duas dúvidas não é sujeito ali, e por não ser sujeito não puxa o verbo para o plural. A impessoalidade do haver existencial é ponto pacífico na tradição normativa brasileira, e aparece tanto em Cunha e Cintra quanto na Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara.
Na locução verbal, o auxiliar pega a impessoalidade e também fica no singular.
Pode haver duas leituras da mesma frase.
Vai haver duas sessões de prova.
O verbo existir funciona ao contrário: ele tem sujeito e concorda com ele.
Existiam duas dúvidas na mesma frase.
Um caso vizinho pede atenção, porque foge da impessoalidade. Na locução com a preposição de, o haver volta a ter sujeito e volta a concordar.
Os candidatos hão de chegar antes das sete.
Teste de bolso: troque haver por existir e escute. Se com existir o verbo pede o plural, há sujeito ali, e com haver o verbo volta ao singular.
Fica a nota de registro: o verbo ter no sentido de existir, como em tem duas dúvidas na frase, é corrente na fala brasileira, e as gramáticas registram o emprego como próprio da língua falada no Brasil. Na escrita que a prova cobra, o lugar continua sendo do haver.
O fazer de tempo, que entra de carona
A regra: o verbo fazer, quando indica tempo decorrido, também é impessoal e fica no singular.
Faz dez anos que a regra não muda.
Fazia dois meses que o caderno estava fechado.
O próprio haver ocupa o mesmo posto quando o assunto é tempo, e continua no singular.
Havia dez anos que a regra não mudava.
Na locução verbal, o auxiliar acompanha o singular: deve fazer dez anos, vai fazer dois meses, começou a fazer três semanas.
A forma no plural aparece na fala e em texto publicado, e as gramáticas descrevem a tendência de dar sujeito ao verbo impessoal. A norma escrita que a prova cobra mantém o singular.
Teste de bolso: troque fazer por haver. Se há dez anos cabe no lugar de faz dez anos, o verbo é de tempo, e o singular é a forma que a norma pede.
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Na próxima mensagem sobre horário, os três verbos resolvem sozinhos: são duas horas, faz dez minutos, houve dois avisos. O plural do ser e o singular do haver e do fazer convivem na mesma linha, cada um pelo motivo dele.
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