A regra · Regra

Verbo ser e verbo haver: a concordância que foge da regra geral

Por Redação Português do Dia · Concordância · Leitura de 11 minutos

Uma ampulheta pequena de mesa sozinha numa superfície de papel claro e frio, sob a luz calma de manhã cedo que entra pela esquerda, com sombra macia caindo pra direita e o vermelho de revisão como única cor viva

A regra geral cabe numa linha: o verbo concorda com o sujeito. Dois verbos escapam dela por caminhos diferentes, e são justamente os dois que aparecem na prova.

O verbo ser, em algumas situações, olha para o predicativo e deixa o sujeito de lado. O verbo haver, no sentido de existir, não tem sujeito nenhum: fica parado na terceira pessoa do singular.

O verbo fazer, quando marca tempo decorrido, entra de carona no segundo caso. Abaixo vem cada situação com a regra aplicável primeiro, o teste de bolso e a fonte normativa.

O ser que concorda com o predicativo

A regra: quando o sujeito é um pronome neutro (tudo, o, isto, aquilo e os demais da mesma série) e o predicativo está no plural, o verbo ser vai para o plural.

Aquilo eram apenas rascunhos da primeira versão.
Tudo são hipóteses antes da conferência na fonte.

A concordância com o predicativo em tais casos está registrada na Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, que descreve o plural como a solução geral. O singular também aparece em texto publicado, e a gramática registra as duas formas.

Existe um segundo caso, e ele vale mais na hora de escrever: quando um dos dois lados do verbo é pessoa ou pronome pessoal, o verbo concorda com a pessoa.

O problema somos nós.
A alegria da casa eram as netas.

Teste de bolso: cubra o pronome neutro com o dedo e leia só o que sobra depois do verbo. Se o que sobra está no plural, o verbo acompanha o plural. Havendo pronome pessoal na frase, o verbo vai atrás dele, e o resto não decide nada.

O ser de hora, data e distância

A regra: nas indicações de hora, data e distância, o verbo ser concorda com o número que aparece na expressão.

São duas horas da tarde.
É uma hora da tarde.
São vinte quilômetros até a próxima cidade.

O sujeito da frase anterior não interfere. Quem manda é a quantidade dita ali, mesmo que a frase comece por hoje, por agora ou por daqui.

Na data, a tradição aceita as duas construções. Com a palavra dia expressa, o verbo fica no singular; sem ela, o plural também tem registro em Cunha e Cintra.

Hoje é dia quatro de agosto.
Hoje são quatro de agosto.

Teste de bolso: pergunte quantos e responda em voz alta. Uma hora pede é; duas horas pedem são. O relógio e o mapa decidem o número do verbo.

O ser de preço, peso e medida

A regra: quando o predicativo é muito, pouco, mais de, menos de ou outra avaliação de quantidade, o verbo ser fica no singular.

Duzentos reais é pouco por um dicionário de mesa.
Três quilos de papel é demais para uma pasta só.
Quatro horas de sono é menos do que o corpo pede.

O sujeito está no plural e o verbo continua no singular, porque a frase avalia a quantidade inteira, e não os itens um por um. A concordância pelo predicativo em preço, peso e medida está descrita em Cunha e Cintra.

Teste de bolso: troque o número por aquela quantia, aquele peso ou aquele tempo. Se a frase fica natural no singular depois da troca, o verbo ser fica no singular.

O haver que não tem sujeito

A regra: o verbo haver, no sentido de existir, acontecer ou tempo decorrido, é impessoal. Fica na terceira pessoa do singular, e o que vem depois dele é objeto direto, não sujeito.

Havia duas dúvidas na mesma frase.
Houve duas mudanças no parágrafo final.

O termo duas dúvidas não é sujeito ali, e por não ser sujeito não puxa o verbo para o plural. A impessoalidade do haver existencial é ponto pacífico na tradição normativa brasileira, e aparece tanto em Cunha e Cintra quanto na Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara.

Na locução verbal, o auxiliar pega a impessoalidade e também fica no singular.

Pode haver duas leituras da mesma frase.
Vai haver duas sessões de prova.

O verbo existir funciona ao contrário: ele tem sujeito e concorda com ele.

Existiam duas dúvidas na mesma frase.

Um caso vizinho pede atenção, porque foge da impessoalidade. Na locução com a preposição de, o haver volta a ter sujeito e volta a concordar.

Os candidatos hão de chegar antes das sete.

Teste de bolso: troque haver por existir e escute. Se com existir o verbo pede o plural, há sujeito ali, e com haver o verbo volta ao singular.

Fica a nota de registro: o verbo ter no sentido de existir, como em tem duas dúvidas na frase, é corrente na fala brasileira, e as gramáticas registram o emprego como próprio da língua falada no Brasil. Na escrita que a prova cobra, o lugar continua sendo do haver.

O fazer de tempo, que entra de carona

A regra: o verbo fazer, quando indica tempo decorrido, também é impessoal e fica no singular.

Faz dez anos que a regra não muda.
Fazia dois meses que o caderno estava fechado.

O próprio haver ocupa o mesmo posto quando o assunto é tempo, e continua no singular.

Havia dez anos que a regra não mudava.

Na locução verbal, o auxiliar acompanha o singular: deve fazer dez anos, vai fazer dois meses, começou a fazer três semanas.

A forma no plural aparece na fala e em texto publicado, e as gramáticas descrevem a tendência de dar sujeito ao verbo impessoal. A norma escrita que a prova cobra mantém o singular.

Teste de bolso: troque fazer por haver. Se há dez anos cabe no lugar de faz dez anos, o verbo é de tempo, e o singular é a forma que a norma pede.

Há ou a: o par que separa passado de futuro

O verbo haver de tempo tem um vizinho gráfico que produz erro em texto profissional todos os dias, e a distinção é simples de fixar.

A forma com agá é o verbo, e indica tempo já decorrido. A forma sem agá é preposição, e indica tempo que ainda vai passar ou distância a percorrer.

Trabalho aqui há dez anos.
As férias começam daqui a dez dias.
A cidade fica a vinte quilômetros.

O teste de bolso é a substituição por faz. Cabendo faz dez anos, a forma é com agá; não cabendo, é a preposição.

Existe uma redundância clássica associada ao par, e ela aparece até em texto revisado: escrever há dois anos atrás. Como o verbo já indica tempo decorrido, a palavra atrás repete a informação, e a recomendação é escolher uma das duas. Há dois anos ou dois anos atrás, nunca as duas juntas.

Vale registrar a mesma armadilha na forma do subjuntivo. Haja é do verbo haver e aparece em construções como haja vista e espero que haja tempo. Aja é do verbo agir e aparece em construções como aja com calma. As duas existem, e nenhum corretor automático distingue uma da outra, porque as duas são palavras registradas.

As construções com haver que continuam vivas

Fora do sentido existencial, o verbo haver sobrevive em construções específicas que aparecem em documento, em prova e em texto jurídico.

A primeira é haver de mais infinitivo, que indica intenção, promessa ou dever. Aqui o verbo tem sujeito e concorda normalmente, como visto acima: hei de terminar, hás de ver, hão de chegar.

A segunda é a expressão haja vista, usada para introduzir justificativa. A tradição normativa registra três construções possíveis: com o termo seguinte sem preposição, com a preposição a e com a preposição de, todas aceitas, e a forma haja visto não é registrada.

A revisão foi adiada, haja vista o volume de textos.

A terceira é o uso de haver como auxiliar de tempo composto, hoje muito mais frequente em Portugal do que no Brasil, onde o verbo ter ocupou o lugar. Ela continua aparecendo em texto formal e literário.

Havia terminado o relatório quando o aviso chegou.

A quarta é a construção haver-se com alguém, no sentido de acertar contas ou lidar com. É rara e mantém registro nas gramáticas.

O ponto comum às quatro é que nenhuma delas é impessoal. A impessoalidade vale apenas para o haver que significa existir, acontecer ou marcar tempo decorrido, e confundir os dois grupos é o que produz erro em texto cuidado.

Os três papéis do verbo ser

O verbo ser é o mais frequente da língua e desempenha três funções distintas, o que explica por que a concordância dele foge do padrão.

O primeiro papel é o de ligação entre sujeito e predicativo, que é o caso tratado nas seções anteriores. Aqui o verbo não indica ação nenhuma: ele apenas amarra uma característica a alguém, e é dessa amarração que nasce a possibilidade de concordar com o outro lado.

O segundo papel é o de auxiliar da voz passiva, combinado com o particípio. Nesse uso, ele concorda normalmente com o sujeito, e o particípio concorda em gênero e número junto.

As provas foram corrigidas pela equipe da manhã.

O terceiro papel é o de reforço de ênfase, na construção com que, chamada de partícula expletiva ou de realce. Ela pode ser retirada da frase sem prejuízo do sentido, e é justamente esse o teste que a identifica.

Foi ontem que a decisão saiu.
A decisão saiu ontem.

Nessa construção, o verbo pode ficar invariável na terceira pessoa do singular, e a tradição também registra a concordância com o termo destacado. As duas formas aparecem em texto publicado.

O teste de bolso que separa os três: pergunte se o verbo liga uma característica, se acompanha um particípio ou se pode sair da frase sem que ela perca sentido. As três respostas levam a comportamentos diferentes de concordância.

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Na próxima mensagem sobre horário, os três verbos resolvem sozinhos: são duas horas, faz dez minutos, houve dois avisos. O plural do ser e o singular do haver e do fazer convivem na mesma linha, cada um pelo motivo dele.

Perguntas frequentes

É "houve dois casos" ou "houveram dois casos"?

Houve dois casos. O verbo haver no sentido de existir ou acontecer é impessoal, fica na terceira pessoa do singular, e o termo que vem depois é objeto direto, não sujeito. Com o verbo existir, que tem sujeito, o plural entra: existiram dois casos.

Quando o verbo ser concorda com o predicativo?

Quando o sujeito é um pronome neutro, como tudo, isto ou aquilo, e o predicativo está no plural, como em tudo são hipóteses. Também quando um dos lados é pessoa ou pronome pessoal, caso em que o verbo vai atrás da pessoa: o problema somos nós.

É "são duas horas" ou "é duas horas"?

São duas horas. Nas indicações de hora, data e distância, o verbo concorda com o número que aparece na expressão, independentemente do que abre a frase. Uma hora pede é; duas horas pedem são.

Por que "duzentos reais é pouco" fica no singular?

Porque o predicativo é uma avaliação de quantidade, e nesses casos o verbo ser fica no singular. A frase avalia a quantia inteira, e não os itens um por um. O mesmo vale para três quilos é demais e quatro horas de sono é menos do que o corpo pede.

Qual a diferença entre "há" e "a" na indicação de tempo?

A forma com agá é o verbo haver e indica tempo já decorrido: trabalho aqui há dez anos. A forma sem agá é preposição e indica tempo futuro ou distância: as férias começam daqui a dez dias. O teste é a substituição por faz.

Pode escrever "há dois anos atrás"?

A construção repete a informação, porque o verbo já indica tempo decorrido. A recomendação é escolher uma das duas formas: há dois anos ou dois anos atrás. O mesmo raciocínio vale para outras redundâncias do tipo, como elo de ligação e certeza absoluta.

Qual a diferença entre "haja" e "aja"?

Haja é do verbo haver e aparece em construções como haja vista e espero que haja tempo. Aja é do verbo agir e aparece em construções como aja com calma. As duas existem, e nenhum corretor automático distingue uma da outra.

O que significa "hão de chegar"?

É a construção de haver mais a preposição de e um infinitivo, que indica intenção, promessa ou dever. Nela o verbo tem sujeito e concorda normalmente, ao contrário do haver existencial: hei de terminar, hás de ver, hão de chegar.

É "haja vista" ou "haja visto"?

Haja vista. A tradição normativa registra três construções possíveis para a expressão, com o termo seguinte sem preposição, com a preposição a ou com a preposição de, e todas são aceitas. A forma com visto não tem registro.

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