A regra · Regra
Regência verbal e nominal: a preposição que a palavra pede
Regência · Leitura de 4 minutos

Neste artigo
Os dois nomes andam juntos no sumário da gramática e resolvem problemas diferentes. A confusão aparece no dia em que a mesma frase cobra os dois.
Concordância é a forma da palavra. O verbo que vai para o plural por causa do sujeito, o adjetivo que muda de gênero por causa do substantivo.
Regência é a preposição. Qual palavra de ligação o verbo exige antes do complemento, e se ele exige alguma.
Os candidatos obedeceram ao regulamento.
Os candidatos obedeceram o regulamento.
Na primeira linha, a concordância decidiu obedeceram no plural. A regência decidiu o ao antes do complemento, e é o segundo ponto que muda entre as duas frases.
Concordância é forma, regência é ligação
A regra: concordância mexe na forma da palavra; regência mexe na ligação entre duas palavras.
A concordância verbal acerta número e pessoa do verbo com o sujeito. A concordância nominal acerta gênero e número do artigo, do adjetivo e do pronome com o substantivo.
A regência verbal define se o verbo pede preposição antes do complemento e qual delas. A regência nominal faz o mesmo com o substantivo, o adjetivo e o advérbio.
A separação está posta assim na Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, e na Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara. São capítulos distintos, com problemas distintos.
Teste de bolso: veja o que está em jogo na sua dúvida. Se a escolha é entre singular e plural, ou entre masculino e feminino, o assunto é concordância. Se a escolha é entre pôr e não pôr a, de, com ou em, o assunto é regência.
Como descobrir a preposição que o verbo pede
A regra: monte uma pergunta curta com o verbo e responda com o complemento. A preposição aparece sozinha na resposta.
Quem obedece, obedece a alguma coisa. Quem gosta, gosta de alguma coisa. Quem chega, chega a algum lugar. Quem paga, paga alguma coisa a alguém.
Os nomes técnicos cabem numa linha, traduzidos. Verbo transitivo direto é o que liga ao complemento sem preposição; transitivo indireto é o que exige preposição.
Teste de bolso: troque o complemento por alguma coisa e diga a frase inteira em voz alta. A preposição sai junto na boca, sem esforço de análise: gosto de alguma coisa, obedeço a alguma coisa, paguei alguma coisa.
Os verbos que mudam de sentido junto da preposição
A regra: em vários verbos, a preposição não é enfeite. Ela troca o sentido do verbo, e a escolha da preposição vira escolha de significado.
Assistir. Com a preposição a, o verbo significa ver, presenciar. Sem preposição, significa prestar assistência.
Assisti ao documentário na sessão da tarde.
O médico assistiu o paciente a noite inteira.
Cunha e Cintra registram as duas regências com sentidos distintos. O uso brasileiro corrente também emprega assistir o filme no sentido de ver, e a construção aparece em texto publicado; a prova cobra a forma com preposição.
Visar. Com objeto direto, o verbo é pôr o visto ou mirar. Com a preposição a, é ter em vista, pretender.
O funcionário visou o passaporte antes do carimbo.
A medida visa ao equilíbrio das contas.
A tradição normativa cobra visar a no sentido de pretender, e registra que o emprego sem preposição avança na escrita corrente.
Aspirar. Com objeto direto, é sorver, puxar para dentro. Com a preposição a, é desejar.
O paciente aspirou o ar frio da manhã.
A revisora aspira ao posto de editora.
Proceder. Sozinho, é ter fundamento. Com a preposição a, é realizar. Com a preposição de, é vir de algum lugar.
A queixa não procede.
O setor procedeu a uma revisão geral dos textos.
O costume procede de outra época.
Implicar. Sem preposição, é acarretar. Com a preposição com, é antipatizar.
A troca de preposição implica mudança de sentido.
O colega implicava com o parágrafo final.
O emprego de implicar em no sentido de acarretar é corrente no Brasil e já tem registro em dicionário de uso. Os gramáticos divergem sobre o lugar dele na escrita formal, e a divergência continua aberta.
Teste de bolso: troque o verbo pelo sinônimo do sentido que você quer dizer. Se cabe ver no lugar, assistir vai com a; se cabe cuidar de, assistir vai sem preposição.
Os verbos que a fala mudou e a prova ainda cobra
A regra: em alguns verbos de uso diário, a fala brasileira seguiu um caminho e a norma escrita seguiu outro. As gramáticas descrevem os dois usos, e a diferença entre eles é de situação, não de descuido.
Chegar e ir pedem a preposição a antes do lugar na norma escrita.
Cheguei a casa depois das sete.
Cheguei em casa depois das sete.
A segunda linha é a forma corrente na fala do Brasil, descrita nas gramáticas como uso brasileiro. A prova cobra a primeira.
Preferir pede um complemento sem preposição e outro com a preposição a, sem reforço no meio.
Prefiro o dicionário de mesa ao aplicativo.
Prefiro muito mais o dicionário de mesa do que o aplicativo.
Cunha e Cintra registram a construção com a preposição a. O reforço com mais e com do que pertence à conversa.
Esquecer e lembrar mudam de regência quando ganham pronome. Sem pronome, ligam direto ao complemento; com pronome, pedem de.
Esqueci o nome da regra.
Esqueci-me do nome da regra.
Lembrei o nome da regra.
Lembrei-me do nome da regra.
Teste de bolso: procure o pronome antes de escolher a preposição. Se o me está na frase, o de vem junto; saindo o me, o de sai com ele.
A regência nominal: o nome que herda a preposição
A regra: o substantivo, o adjetivo e o advérbio também pedem preposição, e o nome costuma repetir a preposição do verbo da mesma família.
- obedecer a, obediente a, obediência a
- referir-se a, referente a, referência a
- proceder de, procedente de, procedência de
- residir em, residente em
Nem todo nome tem verbo por perto, e alguns aceitam mais de uma preposição. Respeito a e respeito por convivem, assim como ávido de e ávido por, e os dois pares estão registrados na tradição.
Teste de bolso: troque o nome pelo verbo da mesma família e escute a preposição que sobra. Obediência puxa a de obedecer a; referência puxa a de referir-se a.
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Na próxima frase com assistir, o dedo pousa no sentido antes da preposição: quem vê vai com a, quem cuida vai sem. A concordância continua resolvendo o plural do verbo, no lugar dela, e os dois trabalhos param de se misturar.
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