A regra · Regra
Regência verbal e nominal: a preposição que a palavra pede
Por Redação Português do Dia · Regência · Leitura de 11 minutos

Neste artigo
- Concordância é forma, regência é ligação
- Como descobrir a preposição que o verbo pede
- Os verbos que mudam de sentido junto da preposição
- Os verbos que a fala mudou e a prova ainda cobra
- A regência nominal: o nome que herda a preposição
- O pronome relativo, onde a regência aparece de verdade
- Onde a regência encontra a crase
- Onde consultar a regência de um verbo
- Perguntas frequentes
Os dois nomes andam juntos no sumário da gramática e resolvem problemas diferentes. A confusão aparece no dia em que a mesma frase cobra os dois.
Concordância é a forma da palavra. O verbo que vai para o plural por causa do sujeito, o adjetivo que muda de gênero por causa do substantivo.
Regência é a preposição. Qual palavra de ligação o verbo exige antes do complemento, e se ele exige alguma.
Os candidatos obedeceram ao regulamento.
Os candidatos obedeceram o regulamento.
Na primeira linha, a concordância decidiu obedeceram no plural. A regência decidiu o ao antes do complemento, e é o segundo ponto que muda entre as duas frases.
Concordância é forma, regência é ligação
A regra: concordância mexe na forma da palavra; regência mexe na ligação entre duas palavras.
A concordância verbal acerta número e pessoa do verbo com o sujeito. A concordância nominal acerta gênero e número do artigo, do adjetivo e do pronome com o substantivo.
A regência verbal define se o verbo pede preposição antes do complemento e qual delas. A regência nominal faz o mesmo com o substantivo, o adjetivo e o advérbio.
A separação está posta assim na Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, e na Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara. São capítulos distintos, com problemas distintos.
Teste de bolso: veja o que está em jogo na sua dúvida. Se a escolha é entre singular e plural, ou entre masculino e feminino, o assunto é concordância. Se a escolha é entre pôr e não pôr a, de, com ou em, o assunto é regência.
Como descobrir a preposição que o verbo pede
A regra: monte uma pergunta curta com o verbo e responda com o complemento. A preposição aparece sozinha na resposta.
Quem obedece, obedece a alguma coisa. Quem gosta, gosta de alguma coisa. Quem chega, chega a algum lugar. Quem paga, paga alguma coisa a alguém.
Os nomes técnicos cabem numa linha, traduzidos. Verbo transitivo direto é o que liga ao complemento sem preposição; transitivo indireto é o que exige preposição.
Teste de bolso: troque o complemento por alguma coisa e diga a frase inteira em voz alta. A preposição sai junto na boca, sem esforço de análise: gosto de alguma coisa, obedeço a alguma coisa, paguei alguma coisa.
Os verbos que mudam de sentido junto da preposição
A regra: em vários verbos, a preposição não é enfeite. Ela troca o sentido do verbo, e a escolha da preposição vira escolha de significado.
Assistir. Com a preposição a, o verbo significa ver, presenciar. Sem preposição, significa prestar assistência.
Assisti ao documentário na sessão da tarde.
O médico assistiu o paciente a noite inteira.
Cunha e Cintra registram as duas regências com sentidos distintos. O uso brasileiro corrente também emprega assistir o filme no sentido de ver, e a construção aparece em texto publicado; a prova cobra a forma com preposição.
Visar. Com objeto direto, o verbo é pôr o visto ou mirar. Com a preposição a, é ter em vista, pretender.
O funcionário visou o passaporte antes do carimbo.
A medida visa ao equilíbrio das contas.
A tradição normativa cobra visar a no sentido de pretender, e registra que o emprego sem preposição avança na escrita corrente.
Aspirar. Com objeto direto, é sorver, puxar para dentro. Com a preposição a, é desejar.
O paciente aspirou o ar frio da manhã.
A revisora aspira ao posto de editora.
Proceder. Sozinho, é ter fundamento. Com a preposição a, é realizar. Com a preposição de, é vir de algum lugar.
A queixa não procede.
O setor procedeu a uma revisão geral dos textos.
O costume procede de outra época.
Implicar. Sem preposição, é acarretar. Com a preposição com, é antipatizar.
A troca de preposição implica mudança de sentido.
O colega implicava com o parágrafo final.
O emprego de implicar em no sentido de acarretar é corrente no Brasil e já tem registro em dicionário de uso. Os gramáticos divergem sobre o lugar dele na escrita formal, e a divergência continua aberta.
Teste de bolso: troque o verbo pelo sinônimo do sentido que você quer dizer. Se cabe ver no lugar, assistir vai com a; se cabe cuidar de, assistir vai sem preposição.
Os verbos que a fala mudou e a prova ainda cobra
A regra: em alguns verbos de uso diário, a fala brasileira seguiu um caminho e a norma escrita seguiu outro. As gramáticas descrevem os dois usos, e a diferença entre eles é de situação, não de descuido.
Chegar e ir pedem a preposição a antes do lugar na norma escrita.
Cheguei a casa depois das sete.
Cheguei em casa depois das sete.
A segunda linha é a forma corrente na fala do Brasil, descrita nas gramáticas como uso brasileiro. A prova cobra a primeira.
Preferir pede um complemento sem preposição e outro com a preposição a, sem reforço no meio.
Prefiro o dicionário de mesa ao aplicativo.
Prefiro muito mais o dicionário de mesa do que o aplicativo.
Cunha e Cintra registram a construção com a preposição a. O reforço com mais e com do que pertence à conversa.
Esquecer e lembrar mudam de regência quando ganham pronome. Sem pronome, ligam direto ao complemento; com pronome, pedem de.
Esqueci o nome da regra.
Esqueci-me do nome da regra.
Lembrei o nome da regra.
Lembrei-me do nome da regra.
Teste de bolso: procure o pronome antes de escolher a preposição. Se o me está na frase, o de vem junto; saindo o me, o de sai com ele.
A regência nominal: o nome que herda a preposição
A regra: o substantivo, o adjetivo e o advérbio também pedem preposição, e o nome costuma repetir a preposição do verbo da mesma família.
- obedecer a, obediente a, obediência a
- referir-se a, referente a, referência a
- proceder de, procedente de, procedência de
- residir em, residente em
Nem todo nome tem verbo por perto, e alguns aceitam mais de uma preposição. Respeito a e respeito por convivem, assim como ávido de e ávido por, e os dois pares estão registrados na tradição.
Teste de bolso: troque o nome pelo verbo da mesma família e escute a preposição que sobra. Obediência puxa a de obedecer a; referência puxa a de referir-se a.
O pronome relativo, onde a regência aparece de verdade
A regência costuma passar despercebida até o momento em que a frase precisa de um pronome relativo. É ali que a preposição sobe para a frente do pronome e a escolha fica visível.
O mecanismo é direto: o verbo da oração seguinte determina a preposição, e ela vai para antes do relativo.
O documentário a que assisti ontem tem três horas.
O livro de que gosto está esgotado.
A cidade de onde vim tem menos de dez mil habitantes.
A regra a que me refiro está no capítulo três.
O erro mais comum é suprimir a preposição, escrevendo o filme que assisti ou a regra que me refiro. A construção é corrente na fala e a norma escrita cobra a preposição, justamente porque ela é exigida pelo verbo que vem depois.
Existe um par que merece atenção separada. O pronome onde indica lugar físico, e o pronome em que indica qualquer outro tipo de circunstância.
A sala onde a prova foi aplicada estava fria.
A situação em que ele se meteu era difícil.
Vale conhecer também a alternativa que resolve a dúvida sem análise: reescrever a frase em duas orações independentes. Assisti ao documentário; ele tem três horas. A preposição que aparece na oração independente é a mesma que sobe para antes do relativo na versão unida.
Onde a regência encontra a crase
O acento grave depende de duas peças, e a primeira delas é justamente a regência: a preposição precisa ser exigida por algum termo da frase.
Daí sai uma consequência prática que economiza tempo. Antes de decidir sobre o acento, verifique se o verbo ou o nome anterior pede mesmo a preposição. Verbo que liga direto ao complemento não pede, e sem preposição não existe acento a discutir.
Assisti à sessão da tarde.
Vi a sessão da tarde.
O primeiro verbo exige a preposição no sentido de presenciar, então o acento entra diante da palavra feminina determinada. O segundo liga direto, e o "a" ali é apenas o artigo, sem fusão nenhuma.
O mesmo raciocínio explica pares que confundem em texto de trabalho.
Obedeça às normas do edital.
Cumpra as normas do edital.
Um verbo pede a preposição e outro não, e o acento acompanha a exigência. É por essa razão que a dúvida de crase, com frequência, é na verdade uma dúvida de regência mal resolvida.
O teste de bolso combinado: primeiro pergunte se o termo anterior pede preposição; depois troque a palavra feminina por uma masculina e escute se aparece "ao". As duas respostas positivas obrigam o acento; qualquer negativa o dispensa.
Onde consultar a regência de um verbo
Regência não se deduz por lógica: ela é propriedade de cada palavra, herdada da história dela, e a consulta é parte normal do trabalho de quem escreve.
O dicionário de uso é a primeira parada, porque as entradas verbais trazem a regência junto da definição, com indicação de transitividade e exemplos de emprego. É a consulta mais rápida para uma dúvida isolada.
Existem também dicionários dedicados exclusivamente a regência, que reúnem verbo por verbo as preposições aceitas, os sentidos correspondentes e os casos em que a tradição diverge. São a referência para quem revisa texto com frequência.
As gramáticas de referência trazem capítulos próprios de regência verbal e nominal, com listas dos casos mais cobrados e o registro das divergências entre autores. É onde se descobre não apenas qual forma usar, mas o quanto a regra é firme.
Uma quarta fonte merece cautela: corretores automáticos e ferramentas de escrita costumam acertar concordância e errar regência, porque a preposição correta depende do sentido pretendido, que nenhum programa infere com segurança. A sugestão automática serve de alerta, e não de decisão.
A newsletter Português do Dia está em preparação
Deixe seu email e receba o aviso quando o primeiro envio sair.
Entre antes do primeiro envio.
Você só recebe o aviso de lançamento. Cancele quando quiser.
Na próxima frase com assistir, o dedo pousa no sentido antes da preposição: quem vê vai com a, quem cuida vai sem. A concordância continua resolvendo o plural do verbo, no lugar dela, e os dois trabalhos param de se misturar.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre concordância e regência?
Concordância mexe na forma da palavra, ajustando número, pessoa e gênero. Regência mexe na ligação, definindo se uma palavra exige preposição antes do complemento e qual delas. Se a escolha é entre singular e plural, o assunto é concordância; se é entre pôr ou não pôr a, de, com ou em, é regência.
É "assistir ao filme" ou "assistir o filme"?
No sentido de ver ou presenciar, a tradição normativa cobra a preposição: assisti ao documentário. Sem preposição, o verbo significa prestar assistência, como em o médico assistiu o paciente. O uso brasileiro corrente emprega a forma sem preposição no sentido de ver, e a prova cobra a com preposição.
Como descobrir a preposição que um verbo pede?
Trocando o complemento por "alguma coisa" e dizendo a frase em voz alta: gosto de alguma coisa, obedeço a alguma coisa, paguei alguma coisa. A preposição sai junto na boca, sem análise. Para casos duvidosos, o dicionário de uso traz a regência junto da definição.
É "cheguei em casa" ou "cheguei a casa"?
A norma escrita cobra a preposição a antes do lugar com os verbos chegar e ir. A forma com em é corrente na fala brasileira e está descrita nas gramáticas como uso do país. A diferença é de situação, e não de descuido.
Quando usar "a que", "de que" e "onde"?
A preposição é determinada pelo verbo da oração seguinte e sobe para antes do pronome relativo: o filme a que assisti, o livro de que gosto. O pronome onde indica lugar físico, e em que cobre qualquer outra circunstância, como a situação em que ele se meteu.
Esquecer pede "de"?
Depende do pronome. Sem pronome, o verbo liga direto ao complemento: esqueci o nome. Com pronome, ele pede a preposição: esqueci-me do nome. O mesmo vale para lembrar, e o teste é procurar o pronome antes de escolher a preposição.
Onde consultar a regência de um verbo?
No dicionário de uso, cuja entrada verbal traz a regência junto da definição, e nos dicionários dedicados exclusivamente a regência, que reúnem verbo por verbo as preposições aceitas e os sentidos correspondentes. Corretores automáticos acertam concordância e erram regência, porque a preposição depende do sentido pretendido.
Regência tem a ver com crase?
Tem, e é a origem de boa parte das dúvidas. O acento grave só existe quando algum termo da frase exige a preposição "a", o que é matéria de regência. Antes de decidir sobre o acento, vale confirmar se o verbo ou o nome anterior pede mesmo a preposição.
Veja também
Colocação pronominal: as três posições e quem manda em cada uma
Crase: cinco casos que resolvem quase toda dúvida, com o teste de cada um
Português do Dia está chegando
Deixe seu email e receba o aviso quando o primeiro envio sair.
Entre antes do primeiro envio.
Você só recebe o aviso de lançamento. Cancele quando quiser.