A regra · Regra
Crase: cinco casos que resolvem quase toda dúvida, com o teste de cada um
Por Redação Português do Dia · Crase · Leitura de 11 minutos

Neste artigo
- Palavra feminina determinada: o caso base
- Nome de cidade: o teste do "voltei de"
- Hora marcada: o acento que separa a hora do intervalo
- "A distância": o caso em que a tradição normativa diverge
- Antes de pronome e antes de verbo
- A lista do que nunca leva acento
- Casa, terra e as palavras que trocam de regra
- Linha do tempo do acento grave
- A lenda do masculino, e os três testes juntos
- Perguntas frequentes
Crase é o encontro de duas vogais iguais numa vogal só. O acento grave é a marca que registra o encontro na escrita.
Na maior parte das frases são dois "a" que se juntam. A preposição "a", cobrada pelo verbo ou pelo nome, e o artigo "a", que acompanha a palavra feminina.
Daí sai a conta que resolve quase tudo. Se o termo antes pede "a" e a palavra depois aceita "a", o acento entra. Faltando um dos dois, o acento não entra.
Abaixo estão cinco casos, um por seção. Cada um abre pela regra, fecha pelo teste que você aplica na próxima frase e nomeia a fonte.
Palavra feminina determinada: o caso base
A regra: o acento entra quando o termo regente pede a preposição "a" e a palavra feminina seguinte aceita o artigo "a".
Entreguei o relatório à coordenadora.
Entreguei o relatório a Vossa Senhoria.
A palavra "coordenadora" aceita artigo, porque cabe dizer "a coordenadora". A forma de tratamento "Vossa Senhoria" não aceita, e sem artigo não há fusão nenhuma.
A mesma conta explica o plural. Diante de palavra feminina no plural, o "a" sozinho fica sem acento, porque o artigo ali seria "as".
Enviei o convite a diretoras de escola.
Enviei o convite às diretoras da escola.
A Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, e a Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, descrevem a crase como a fusão da preposição com o artigo. O acento é o registro gráfico dessa fusão.
O teste de bolso: troque a palavra feminina por uma masculina de mesmo papel na frase. Aparecendo "ao", o acento entra.
Nome de cidade: o teste do "voltei de"
A regra: nome de lugar leva acento só quando o lugar aceita artigo. Uns aceitam, outros não, e o dado é da palavra, não da geografia.
O teste de bolso vem antes da explicação, porque resolve sozinho: monte a frase com o verbo voltar. Saindo "voltei da", o acento entra; saindo "voltei de", o acento fica fora.
Vou a Curitiba em julho.
Vou à Bahia em julho.
A lenda de que nome de cidade nunca leva crase morre no segundo caso. Cidade que recusa o artigo passa a aceitar quando vem determinada por um adjunto.
Voltei a Curitiba no ano passado.
Voltei à Curitiba fria de julho.
Cunha e Cintra registram o comportamento do artigo diante de topônimos, que é o nome técnico dos nomes de lugar.
Hora marcada: o acento que separa a hora do intervalo
A regra: hora marcada pede artigo, e o acento entra. Vale para a hora cheia, a hora quebrada e o singular.
A reunião começa às oito.
A reunião começa à uma e meia.
O teste de bolso: troque a hora por "meio-dia". Saindo "ao meio-dia", o acento entra na hora original.
O "a" que marca intervalo é outro. Ele não traz artigo nenhum e fica sem acento.
A reunião começa daqui a duas horas.
Teste do intervalo: se couber trocar por "dentro de", não há acento. Cunha e Cintra tratam as indicações de hora entre as expressões que pedem o artigo feminino.
As duas formas, no caso de "até". A tradição normativa aceita as duas escritas e o ponto é discutido: quem analisa o "as" como artigo escreve "até as oito", quem soma a preposição "a" ao "até" escreve "até às oito". Nenhuma das duas é tratada como erro.
"A distância": o caso em que a tradição normativa diverge
A regra mais cobrada: "a distância" fica sem acento quando a distância não vem especificada, e recebe acento quando vem.
Reconheci o carro a distância.
Reconheci o carro à distância de cem metros.
A divergência é conhecida e vale dizer que existe. Parte da tradição normativa mantém a exigência da medida; parte registra "à distância" como locução já firmada, com acento em qualquer caso. A designação oficial do ensino no Brasil vem sem acento, na forma "educação a distância".
A vizinhança da expressão segue outra regra, e essa é pacífica: locução adverbial formada por palavra feminina leva o acento grave, que ali serve de desambiguação.
Ele bateu a máquina no muro.
Ele bateu à máquina o relatório inteiro.
O teste de bolso: se a expressão responde "como?" ou "quando?" e começa por palavra feminina, o acento entra. Cunha e Cintra registram o acento nas locuções adverbiais femininas.
Antes de pronome e antes de verbo
A regra do verbo é fechada: verbo não aceita artigo, então não há acento antes de verbo.
A chuva começou a cair no fim da tarde.
A regra do pronome depende do pronome. Pessoais, de tratamento e indefinidos recusam o artigo e ficam sem acento: "a ela", "a Vossa Excelência", "a ninguém".
O acento aparece quando a preposição encontra o "a" inicial de "aquele", "aquela" e "aquilo", e diante de "a qual" e "as quais" com termo regente que pede "a".
Refiro-me àquela decisão de junho.
A decisão à qual você se opôs saiu ontem.
O teste de bolso: troque o pronome pelo masculino correspondente. Em "refiro-me àquele processo", o acento continua visível, porque a soma das duas vogais permanece.
A lista do que nunca leva acento
Decorar as proibições economiza mais tempo que decorar as permissões, porque elas são poucas e fechadas. Sete situações dispensam o acento sem exceção prática.
Antes de verbo, porque verbo não aceita artigo. Antes de palavra masculina, salvo o caso da expressão subentendida tratado adiante. Antes de pronome pessoal, de tratamento ou indefinido, que recusam o artigo por natureza.
Entre palavras repetidas, na construção que a gramática chama de expressão distributiva. O "a" ali é preposição pura, sem artigo nenhum atrás.
O trabalho avança passo a passo.
Enchemos o copo gota a gota.
Diante de palavra feminina no plural quando o "a" está sozinho, porque o artigo plural seria "as" e a soma exigiria "às". Diante de nome de cidade que recusa artigo, verificável pelo teste do voltar. E na indicação de intervalo de tempo, aquela em que caberia trocar por "dentro de".
Uma oitava situação é discutida e vale conhecer: diante de "uma". Como "uma" é artigo indefinido, a maioria das gramáticas normativas descarta o acento, e algumas registram o uso com acento em contextos específicos. Na dúvida de texto formal, escreva sem.
A lista responde por boa parte dos acentos indevidos que aparecem em texto profissional, e todos eles têm a mesma origem: a suposição de que o "a" antes de palavra feminina pede acento por padrão.
Casa, terra e as palavras que trocam de regra
Duas palavras aparecem em toda prova e confundem por um motivo específico: elas mudam de comportamento conforme o que vem depois.
A palavra "casa", no sentido do próprio lar, recusa o artigo e fica sem acento. Determinada por um complemento, ela passa a aceitar.
Cheguei a casa depois das nove.
Cheguei à casa dos meus pais depois das nove.
A palavra "terra", no sentido de chão firme em oposição ao mar ou ao ar, também recusa o artigo. No sentido de solo determinado, de país ou do planeta, ela aceita.
Os marinheiros desceram a terra ao amanhecer.
Voltamos à terra onde nascemos.
O mesmo mecanismo explica um par que costuma ser cobrado junto. A expressão que indica meio ou instrumento pede o acento quando o núcleo é feminino, e ele funciona como desambiguação em várias frases.
Escrevi o bilhete à mão.
Fomos até o cais à noite.
O teste de bolso que cobre os três casos é sempre o mesmo, e vale repetir porque ele carrega o artigo inteiro: pergunte se a palavra seguinte, naquela frase específica, aceitaria o artigo "a" na frente. Se aceitar e o termo anterior pedir preposição, o acento entra.
Linha do tempo do acento grave
- 1911A primeira reforma ortográfica sistemática da língua portuguesa é adotada em Portugal, e o acento grave passa a ter uso regulado na escrita.
- 1943O Brasil aprova o formulário ortográfico que organiza a acentuação no país, com o acento grave desempenhando mais de uma função na escrita da época.
- 1971Uma lei brasileira simplifica a acentuação e elimina o acento grave dos advérbios formados a partir de adjetivos acentuados, restringindo o sinal quase que exclusivamente ao registro da crase.
- 1990É assinado o acordo ortográfico entre os países de língua portuguesa, que não altera as regras de crase, dedicadas a hífen, acentuação de ditongos e letras do alfabeto.
- 2009O acordo entra em vigor no Brasil, com período de transição para adaptação de livros didáticos e documentos oficiais.
- 2016Encerra-se o período de transição, e a ortografia acordada passa a ser a única válida em documento oficial brasileiro, sem qualquer mudança na regra do acento grave.
A lenda do masculino, e os três testes juntos
A lenda diz que crase antes de palavra masculina não existe. O registro que desarma a lenda é a elipse de "à moda de", tratada nas gramáticas de referência.
Ele escreve à Machado de Assis.
Pediu frango à passarinho e um sapato à Luís XV.
O acento ali não vem de artigo feminino nenhum. Ele marca a expressão "à moda de" que ficou subentendida, e Cunha e Cintra descrevem o caso.
Os três testes cabem numa linha cada um. Troque por masculino e procure o "ao". Monte a frase com voltar e procure o "da". Troque a hora por meio-dia e procure o "ao".
A newsletter Português do Dia está em preparação
Deixe seu email e receba o aviso quando o primeiro envio sair.
Entre antes do primeiro envio.
Você só recebe o aviso de lançamento. Cancele quando quiser.
Na próxima mensagem de trabalho que você escrever, o caso mais provável é o primeiro da lista: um verbo pedindo "a" e uma palavra feminina logo depois. Troque a palavra por uma masculina, escute se aparece "ao", e o acento se decide sozinho antes de você enviar.
Perguntas frequentes
Existe crase antes de nome de cidade?
Existe, quando o nome aceita artigo, e o teste é montar a frase com o verbo voltar. Cidade que recusa o artigo passa a aceitar quando vem acompanhada de um complemento, o que produz pares como voltei a Curitiba e voltei à Curitiba fria de julho.
Quando usar crase?
Quando o termo anterior pede a preposição "a" e a palavra seguinte aceita o artigo "a". Faltando qualquer um dos dois, o acento não entra. O teste mais rápido é trocar a palavra feminina por uma masculina de mesmo papel: se aparecer "ao", o acento entra.
Como saber se uma cidade leva crase?
Montando a frase com o verbo voltar. Saindo "voltei da", o acento entra; saindo "voltei de", ele fica fora. A lenda de que nome de cidade nunca leva acento não se sustenta, e cidade que recusa o artigo passa a aceitar quando vem determinada por um complemento.
Usa-se crase antes de horas?
Sim, em hora marcada, porque ela pede artigo. O teste é trocar a hora por meio-dia: saindo "ao meio-dia", o acento entra. O "a" que marca intervalo é outro e fica sem acento, e o teste dele é a troca por "dentro de".
É "à distância" ou "a distância"?
A regra mais cobrada pede o acento apenas quando a distância vem especificada. A tradição normativa diverge: parte registra a expressão como locução já firmada, com acento em qualquer caso. A designação oficial do ensino no Brasil aparece sem acento, na forma educação a distância.
Existe crase antes de palavra masculina?
Existe, no caso da expressão subentendida. Em construções como escrever à Machado de Assis ou pedir frango à passarinho, o acento marca a locução "à moda de" que ficou implícita, e não um artigo feminino. As gramáticas de referência registram o caso.
Crase entre palavras repetidas leva acento?
Não. Em construções como passo a passo, gota a gota e cara a cara, o "a" é preposição pura, sem artigo atrás, e a gramática trata a estrutura como expressão distributiva. O acento fica de fora mesmo quando as palavras repetidas são femininas.
Por que não há crase antes de verbo?
Porque verbo não aceita artigo, e sem artigo não há fusão a registrar. O mesmo raciocínio vale para pronomes pessoais, de tratamento e indefinidos, que também recusam o artigo por natureza.
Crase antes de "uma" existe?
Como "uma" é artigo indefinido, a maioria das gramáticas normativas descarta o acento, e algumas registram o uso em contextos específicos. Em texto formal, na dúvida, escreva sem. O mesmo raciocínio vale diante de pronomes que recusam artigo, como ela, ninguém e Vossa Excelência.
Quando "casa" e "terra" levam crase?
Quando vêm determinadas. No sentido do próprio lar, casa recusa o artigo; acompanhada de complemento, aceita. No sentido de chão firme em oposição ao mar, terra recusa; no sentido de solo determinado, de país ou do planeta, aceita.
Veja também
Ortografia: o que o Acordo de 1990 mexeu, o que ele não mexeu e onde conferir
Concordância verbal: os cinco tipos de sujeito que enganam o verbo
Português do Dia está chegando
Deixe seu email e receba o aviso quando o primeiro envio sair.
Entre antes do primeiro envio.
Você só recebe o aviso de lançamento. Cancele quando quiser.