A regra · Regra

Concordância nominal: as palavras que não concordam do jeito esperado

Concordância · Leitura de 4 minutos

Uma borracha branca usada, com o canto gasto, sozinha numa superfície de papel claro e frio, sob a luz calma de manhã cedo que entra pela esquerda, com sombra macia caindo pra direita e o vermelho de revisão como única cor viva

Concordância nominal é o ajuste de gênero e de número entre um nome e as palavras que o acompanham: artigo, adjetivo, pronome, numeral e particípio.

A regra geral cabe numa linha e quase nunca falha: as palavras que acompanham um substantivo vão para o gênero e o número dele.

O que derruba a frase é um punhado de palavras que mudam de comportamento conforme a função que exercem. A mesma palavra varia numa frase e fica invariável na seguinte, e a diferença está na função, não na palavra.

Cada seção abaixo trata de uma família dessas, com a regra na abertura, o teste que resolve a próxima frase e a fonte que registra.

Anexo, incluso e obrigado: adjetivos disfarçados

A regra: as três são adjetivos e concordam com o substantivo a que se referem.

Segue anexo o comprovante.
Seguem anexas as fotos da obra.
Vai inclusa a segunda via.

O caso de "obrigado" segue a mesma lógica e surpreende mais gente. A palavra concorda com quem agradece, porque o sentido original é "fico obrigado a você".

Obrigado, disse ele.
Obrigada, disse ela.

A locução "em anexo" é invariável e o ponto é discutido. Parte da tradição normativa resiste à locução por origem estrangeira, e os dicionários de uso a registram como corrente na correspondência.

Vão em anexo as fotos da obra.

Cunha e Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo, tratam o adjetivo como palavra que concorda com o substantivo em gênero e número, e "anexo" cai nessa descrição.

O teste de bolso: pergunte "anexo o quê?". Havendo resposta com um substantivo, a palavra concorda com ele.

Meio: um pouco ou metade

A regra: "meio" varia quando é numeral e fica invariável quando é advérbio.

Comprou meia dúzia de ovos.
Ela ficou meio cansada depois da caminhada.

Na primeira frase, "meio" significa metade e acompanha um substantivo. Na segunda, significa "um pouco" e acompanha um adjetivo, sem concordar com nada.

A hora combina as duas funções e cria a forma que mais gera dúvida.

A sessão começa ao meio-dia e meia.

O "meia" ali concorda com a palavra hora, que ficou subentendida, e não com "dia". A forma com "meia-dia" não tem registro na norma escrita.

O teste de bolso: troque "meio" por "um pouco". Continuando a frase de pé, a palavra fica invariável.

Bastante, menos e alerta: quem varia e quem não varia

A regra de "bastante": varia quando acompanha substantivo, no sentido de "muitos", e fica invariável quando acompanha verbo ou adjetivo, no sentido de "muito".

O candidato apresentou bastantes provas.
Os dois estudaram bastante.
Eles estavam bastante cansados.

O teste de bolso: troque por "muitos". Cabendo o plural na troca, "bastante" também vai para o plural.

A palavra "menos" é invariável em qualquer posição, sem exceção registrada.

Compareceram menos pessoas do que na semana passada.
A prova cobrou menos regras do que a anterior.

A forma com "a" no fim não tem registro em gramática nem no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, o VOLP, da Academia Brasileira de Letras. Diante de palavra feminina no plural, a forma continua a mesma, e a ausência de flexão é a própria regra.

O caso de "alerta" é o ponto discutido da família. A tradição normativa o trata como advérbio invariável, e os dicionários de uso já registram também o adjetivo, que admite plural.

Os guardas ficaram alerta a noite inteira.
Os guardas ficaram alertas a noite inteira.

A prova costuma cobrar a forma invariável. Em texto próprio, as duas circulam, e chamar a segunda de deslize passa por cima do registro em dicionário.

É proibido, é bom, é necessário: a fórmula que procura o artigo

A regra: nas expressões formadas por verbo de ligação mais adjetivo, a expressão fica invariável quando o substantivo vem sem determinante, e concorda quando o substantivo vem determinado.

É proibido entrada de animais.
É proibida a entrada de animais.
É necessário paciência.
É necessária muita paciência.

Bechara, na Moderna Gramática Portuguesa, descreve a construção sem determinante como enunciado de valor geral, próximo de um aviso, e o determinante é o que particulariza o caso.

A mesma fórmula aparece com "é bom", "é preciso" e "é permitido", e o comportamento se repete inteiro.

Cerveja é bom em dia quente.
A cerveja gelada é boa em dia quente.

O teste de bolso: procure o artigo ou o pronome antes do substantivo. Havendo determinante, a expressão concorda; não havendo, a expressão fica no masculino singular.

Um adjetivo para dois nomes, e dois adjetivos para um nome

A regra: adjetivo posposto a vários substantivos vai para o plural, e no plural masculino quando os gêneros são diferentes. A concordância com o substantivo mais próximo também é aceita.

Vestiu camisa e paletó novos.
Vestiu camisa e paletó novo.

Adjetivo anteposto costuma concordar com o substantivo mais próximo, e a construção soa natural na ordem em que aparece.

Encontramos destruído o muro e a cerca.
Encontramos destruída a cerca e o muro.

A ordem dos nomes muda a forma do adjetivo, e as duas frases estão corretas. Quem escreve para um documento costuma preferir o plural posposto, que não depende da ordem e não obriga o leitor a reler.

O caminho inverso, com dois adjetivos para um substantivo, aceita duas montagens, e as duas estão na tradição.

a literatura brasileira e a portuguesa
as literaturas brasileira e portuguesa

O teste de bolso: leia a frase colando o adjetivo apenas no nome mais próximo. Se o sentido continuar cobrindo os dois nomes, a concordância com o mais próximo passa; se ficar faltando um, o plural é o caminho.

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A frase que você vai escrever hoje provavelmente carrega uma das duas primeiras famílias: um anexo no email de trabalho ou um "meio" que pede decisão. Pergunte "anexo o quê?" e tente a troca por "um pouco", e as duas se resolvem antes do envio.

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