A regra · Regra

Concordância nominal: as palavras que não concordam do jeito esperado

Por Redação Português do Dia · Concordância · Leitura de 11 minutos

Uma borracha branca usada, com o canto gasto, sozinha numa superfície de papel claro e frio, sob a luz calma de manhã cedo que entra pela esquerda, com sombra macia caindo pra direita e o vermelho de revisão como única cor viva

Concordância nominal é o ajuste de gênero e de número entre um nome e as palavras que o acompanham: artigo, adjetivo, pronome, numeral e particípio.

A regra geral cabe numa linha e quase nunca falha: as palavras que acompanham um substantivo vão para o gênero e o número dele.

O que derruba a frase é um punhado de palavras que mudam de comportamento conforme a função que exercem. A mesma palavra varia numa frase e fica invariável na seguinte, e a diferença está na função, não na palavra.

Cada seção abaixo trata de uma família dessas, com a regra na abertura, o teste que resolve a próxima frase e a fonte que registra.

Anexo, incluso e obrigado: adjetivos disfarçados

A regra: as três são adjetivos e concordam com o substantivo a que se referem.

Segue anexo o comprovante.
Seguem anexas as fotos da obra.
Vai inclusa a segunda via.

O caso de "obrigado" segue a mesma lógica e surpreende mais gente. A palavra concorda com quem agradece, porque o sentido original é "fico obrigado a você".

Obrigado, disse ele.
Obrigada, disse ela.

A locução "em anexo" é invariável e o ponto é discutido. Parte da tradição normativa resiste à locução por origem estrangeira, e os dicionários de uso a registram como corrente na correspondência.

Vão em anexo as fotos da obra.

Cunha e Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo, tratam o adjetivo como palavra que concorda com o substantivo em gênero e número, e "anexo" cai nessa descrição.

O teste de bolso: pergunte "anexo o quê?". Havendo resposta com um substantivo, a palavra concorda com ele.

Meio: um pouco ou metade

A regra: "meio" varia quando é numeral e fica invariável quando é advérbio.

Comprou meia dúzia de ovos.
Ela ficou meio cansada depois da caminhada.

Na primeira frase, "meio" significa metade e acompanha um substantivo. Na segunda, significa "um pouco" e acompanha um adjetivo, sem concordar com nada.

A hora combina as duas funções e cria a forma que mais gera dúvida.

A sessão começa ao meio-dia e meia.

O "meia" ali concorda com a palavra hora, que ficou subentendida, e não com "dia". A forma com "meia-dia" não tem registro na norma escrita.

O teste de bolso: troque "meio" por "um pouco". Continuando a frase de pé, a palavra fica invariável.

Bastante, menos e alerta: quem varia e quem não varia

A regra de "bastante": varia quando acompanha substantivo, no sentido de "muitos", e fica invariável quando acompanha verbo ou adjetivo, no sentido de "muito".

O candidato apresentou bastantes provas.
Os dois estudaram bastante.
Eles estavam bastante cansados.

O teste de bolso: troque por "muitos". Cabendo o plural na troca, "bastante" também vai para o plural.

A palavra "menos" é invariável em qualquer posição, sem exceção registrada.

Compareceram menos pessoas do que na semana passada.
A prova cobrou menos regras do que a anterior.

A forma com "a" no fim não tem registro em gramática nem no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, o VOLP, da Academia Brasileira de Letras. Diante de palavra feminina no plural, a forma continua a mesma, e a ausência de flexão é a própria regra.

O caso de "alerta" é o ponto discutido da família. A tradição normativa o trata como advérbio invariável, e os dicionários de uso já registram também o adjetivo, que admite plural.

Os guardas ficaram alerta a noite inteira.
Os guardas ficaram alertas a noite inteira.

A prova costuma cobrar a forma invariável. Em texto próprio, as duas circulam, e chamar a segunda de deslize passa por cima do registro em dicionário.

É proibido, é bom, é necessário: a fórmula que procura o artigo

A regra: nas expressões formadas por verbo de ligação mais adjetivo, a expressão fica invariável quando o substantivo vem sem determinante, e concorda quando o substantivo vem determinado.

É proibido entrada de animais.
É proibida a entrada de animais.
É necessário paciência.
É necessária muita paciência.

Bechara, na Moderna Gramática Portuguesa, descreve a construção sem determinante como enunciado de valor geral, próximo de um aviso, e o determinante é o que particulariza o caso.

A mesma fórmula aparece com "é bom", "é preciso" e "é permitido", e o comportamento se repete inteiro.

Cerveja é bom em dia quente.
A cerveja gelada é boa em dia quente.

O teste de bolso: procure o artigo ou o pronome antes do substantivo. Havendo determinante, a expressão concorda; não havendo, a expressão fica no masculino singular.

As expressões que travam a frase de trabalho

Quatro construções aparecem com frequência em documento e em mensagem profissional, e cada uma tem uma regra própria que não se deduz das anteriores.

A expressão a mais e a menos, no sentido de excedente ou de falta, fica invariável quando funciona como advérbio, e é a forma que aparece na maior parte dos textos.

Vieram dois documentos a mais.
Faltaram três páginas a menos no arquivo.

A expressão o menos possível e o mais possível segue a regra do artigo, já vista: com artigo no singular, o adjetivo fica no singular.

A palavra caro e barato varia quando é adjetivo e fica parada quando é advérbio, o que produz um par que confunde em texto comercial.

Os ingressos estavam caros.
Os ingressos custaram caro.

Na primeira frase, a palavra descreve os ingressos; na segunda, descreve o verbo custar, e não concorda com nada.

A palavra junto varia quando descreve pessoas ou coisas e a locução junto a, junto de e junto com fica invariável.

Os documentos seguem juntos no envelope.
Assine junto com o responsável pelo setor.

O teste de bolso comum às quatro é o de sempre nesta matéria: pergunte se a palavra está descrevendo alguém ou alguma coisa, ou se está descrevendo o verbo. A primeira resposta pede concordância; a segunda deixa a palavra parada.

Um adjetivo para dois nomes, e dois adjetivos para um nome

A regra: adjetivo posposto a vários substantivos vai para o plural, e no plural masculino quando os gêneros são diferentes. A concordância com o substantivo mais próximo também é aceita.

Vestiu camisa e paletó novos.
Vestiu camisa e paletó novo.

Adjetivo anteposto costuma concordar com o substantivo mais próximo, e a construção soa natural na ordem em que aparece.

Encontramos destruído o muro e a cerca.
Encontramos destruída a cerca e o muro.

A ordem dos nomes muda a forma do adjetivo, e as duas frases estão corretas. Quem escreve para um documento costuma preferir o plural posposto, que não depende da ordem e não obriga o leitor a reler.

O caminho inverso, com dois adjetivos para um substantivo, aceita duas montagens, e as duas estão na tradição.

a literatura brasileira e a portuguesa
as literaturas brasileira e portuguesa

O teste de bolso: leia a frase colando o adjetivo apenas no nome mais próximo. Se o sentido continuar cobrindo os dois nomes, a concordância com o mais próximo passa; se ficar faltando um, o plural é o caminho.

Só, mesmo, próprio e possível

Quatro palavras trocam de classe conforme a função na frase, e o comportamento delas é o mesmo do "meio" tratado acima: variam como adjetivo e ficam paradas como advérbio.

A palavra só varia quando significa sozinho e fica invariável quando significa apenas.

Elas ficaram sós na sala depois da prova.
Elas só chegaram depois da prova.

O teste é a substituição. Cabendo sozinhas, a palavra vai para o plural; cabendo apenas, ela fica como está. A locução a sós é sempre invariável.

As palavras mesmo e próprio concordam com o termo a que se referem quando reforçam identidade, e ficam invariáveis quando significam realmente ou de fato.

Elas mesmas conferiram os dados.
Elas conferiram mesmo os dados.

A palavra possível segue uma regra própria, ligada ao artigo da expressão superlativa. Com artigo no singular, ela fica no singular; com artigo no plural, ela vai ao plural.

Entregue o texto o mais limpo possível.
Entregue textos os mais limpos possíveis.

O teste comum às quatro: cubra a palavra com o dedo e leia a frase sem ela. Se o que sobra descreve alguém ou alguma coisa, a palavra concorda; se o que sobra descreve o verbo, ela fica parada.

Numerais, datas e páginas

Números carregam duas ou três construções aceitas, e escolher a errada raramente é erro grave, mas custa clareza.

Com numerais ordinais referidos a um mesmo substantivo, a norma aceita duas montagens.

os dois primeiros capítulos
os capítulos primeiro e segundo

A primeira é a mais usada e a mais econômica; a segunda é a preferida em texto jurídico e em referência técnica, por ser mais explícita.

Em indicação de página, artigo ou número de item, a tradição registra o numeral cardinal depois do substantivo, sem flexão.

Veja a página dois e o artigo trinta.

Na indicação de hora, a palavra meia concorda com hora, que fica subentendida, e não com dia, como já visto. Em datas, a regra registra o cardinal, com exceção do primeiro dia do mês, que admite ordinal em parte da tradição.

A reunião foi marcada para primeiro de setembro.

Nas expressões um e outro e nem um nem outro, o substantivo seguinte fica no singular e o adjetivo, quando existe, vai ao plural.

Um e outro documento apresentados estavam completos.

O teste de bolso: leia o numeral em voz alta com o substantivo colado. A construção que soa natural e não obriga a reler é quase sempre a que a norma registra como preferencial.

Cores compostas e substantivos que viram adjetivo

O campo das cores concentra um tipo específico de dúvida, e a regra depende da origem da palavra.

Cor expressa por adjetivo simples concorda normalmente: camisas brancas, sapatos pretos, paredes amarelas.

Cor composta por dois adjetivos flexiona apenas o segundo elemento.

Ele comprou duas camisas verde-escuras.
As paredes ficaram azul-claras.

Cor composta por adjetivo mais substantivo fica invariável por inteiro, porque o substantivo não aceita a flexão do adjetivo.

Ele usava sapatos verde-abacate.
As cortinas eram amarelo-ouro.

Cor expressa por substantivo usado como adjetivo também fica invariável, e é a regra que mais causa estranheza porque contraria a intuição.

Ela comprou três blusas rosa.
Os uniformes eram cinza.
As bandeiras ficaram laranja ao sol.

A explicação é histórica: rosa, cinza, laranja, creme e gelo são nomes de coisas usados para designar a cor delas, e a construção subentende da cor de. O plural aparece na fala e em texto publicado, e a norma escrita registra a forma invariável.

A exceção conhecida é azul-marinho, invariável por ser composta com substantivo, ao lado de azul-celeste, também invariável. Já verde-claro e verde-escuro flexionam o segundo elemento, porque os dois são adjetivos.

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A frase que você vai escrever hoje provavelmente carrega uma das duas primeiras famílias: um anexo no email de trabalho ou um "meio" que pede decisão. Pergunte "anexo o quê?" e tente a troca por "um pouco", e as duas se resolvem antes do envio.

Perguntas frequentes

É "segue anexo" ou "seguem anexas"?

Depende do que segue. Anexo é adjetivo e concorda com o substantivo: segue anexo o comprovante, seguem anexas as fotos. A locução em anexo é invariável, e o ponto é discutido: parte da tradição resiste a ela por origem estrangeira, e os dicionários de uso a registram como corrente na correspondência.

Homem diz "obrigado" e mulher diz "obrigada"?

Sim. A palavra concorda com quem agradece, porque o sentido original é fico obrigado a você. Não é questão de cortesia nem de a quem se fala: quem agradece define a forma.

Quando "meio" varia?

Quando é numeral e significa metade, acompanhando substantivo: meia dúzia. Fica invariável quando é advérbio e significa um pouco, acompanhando adjetivo: ela ficou meio cansada. Em meio-dia e meia, a palavra concorda com hora, que ficou subentendida.

Existe "menas"?

Não. Menos é invariável em qualquer posição, e a forma com a no fim não tem registro em gramática nem no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Diante de palavra feminina no plural, a forma continua a mesma, e a ausência de flexão é a própria regra.

É "é proibido entrada" ou "é proibida a entrada"?

As duas, conforme o determinante. Sem artigo antes do substantivo, a expressão fica invariável, como enunciado de valor geral: é proibido entrada de animais. Com artigo, ela concorda: é proibida a entrada de animais. O mesmo vale para é bom, é preciso e é necessário.

Como concordar com cores?

Adjetivo simples concorda: camisas brancas. Cor composta por dois adjetivos flexiona só o segundo: verde-escuras. Cor composta com substantivo fica invariável: verde-abacate. E cor expressa por substantivo, como rosa, cinza e laranja, fica invariável: três blusas rosa.

"Caro" e "barato" concordam?

Variam quando são adjetivos e descrevem alguém ou alguma coisa, como em os ingressos estavam caros. Ficam invariáveis quando são advérbios e descrevem o verbo, como em os ingressos custaram caro. O mesmo raciocínio vale para junto, que fica parado nas locuções junto a, junto de e junto com.

Quando "só" vai para o plural?

Quando significa sozinho, caso em que é adjetivo e concorda: elas ficaram sós. No sentido de apenas, ele é advérbio e fica invariável: elas só chegaram depois. A locução a sós é sempre invariável.

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