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Corretor de texto: o que ele fecha sozinho e o que fica com quem escreve

Ferramentas · Leitura de 4 minutos

Uma lupa de mão pequena, de cabo de madeira, sozinha numa superfície de papel claro e frio, sob a luz calma de manhã cedo que entra pela esquerda, com sombra macia caindo pra direita e o vermelho de revisão como única cor viva

O sublinhado vermelho aparece embaixo da palavra e some quando você troca uma letra. A pergunta que o programa respondeu ali foi uma só: essa sequência de letras consta na lista de palavras dele?

Nenhuma outra pergunta foi feita. Se a palavra existe, o sublinhado some, mesmo quando ela é a palavra errada para a frase.

Abaixo está a divisão de trabalho real. Primeiro o que o corretor fecha sozinho, e depois as decisões que continuam com quem escreve, cada uma com o teste de bolso que resolve na hora.

O que o corretor fecha sozinho

Duas coisas, e as duas são de forma, nunca de sentido.

A primeira é a grafia registrada. Quem escreve beneficiente recebe a marcação, porque a forma que consta no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, é beneficente. O mesmo caminho vale para empecilho, escrita com e no começo.

A campanha é beneficente.
O empecilho apareceu na quinta.

A segunda é a digitação: letra trocada de posição, tecla dobrada, espaço faltando no meio. O acerto aqui é quase total, porque a sequência que sobrou não é palavra de língua nenhuma.

Teste de bolso: quando a sua dúvida cabe na pergunta como se escreve, o corretor serve. A conferência final é no Vocabulário Ortográfico, que é público e pesquisável no site da Academia Brasileira de Letras.

A palavra que existe e não é a palavra da frase

Aqui o sublinhado não aparece, porque as duas formas do par são palavras registradas.

  • mau e mal. Mau é adjetivo e o contrário é bom. Mal é advérbio e o contrário é bem. Teste de bolso: troque por bom. Se couber, é mau.
  • mas e mais. Mas é conjunção e cabe no lugar de porém. Mais é quantidade e o contrário é menos. Teste de bolso: troque por porém.
  • a gente e agente. A gente equivale a nós. Agente é quem age ou quem representa alguém. Teste de bolso: troque por nós.
A gente combinou de escrever mais devagar, mas ninguém cumpriu.

A classe de cada uma está registrada no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. O programa passa por cima da troca nos três pares, porque cada palavra ali existe, e a escolha entre elas é de sentido.

A crase, que depende do que a frase quer dizer

Crase é a fusão da preposição a com o artigo a, e o acento grave marca a fusão. A fusão só acontece quando a palavra feminina vem determinada, e determinada, na prática, é quando cabe um artigo antes dela.

Vou à reunião de segunda.
Vou a reuniões toda segunda.

Na primeira frase a reunião é uma só e conhecida, o artigo entra e a fusão acontece. Na segunda, as reuniões estão soltas no plural, sem artigo, e a fusão não tem o que fundir.

Teste de bolso: troque a palavra feminina por uma masculina equivalente. Se sair ao, o acento entra, como em vou ao encontro de segunda. Se sair a sozinho, o acento fica fora, como em vou a encontros toda segunda.

O critério está na Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, e na Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara. Nenhum programa aplica o critério por você, porque ele depende de qual reunião está na sua cabeça.

A concordância que o corretor não enxerga

A ferramenta compara palavras vizinhas, e a vizinhança é o que ela enxerga melhor. O verbo, porém, concorda com o núcleo do sujeito, que às vezes está longe dele.

A lista de nomes que você mandou chegou hoje.

Quem chegou foi a lista, e não os nomes. O verbo fica no singular, com uma palavra no plural colada nele.

Teste de bolso: pergunte quem ao verbo e responda com uma palavra só. A resposta é o núcleo, e a concordância é com o núcleo.

Sugestão automática de gramática se guia pela palavra mais próxima, e a proximidade aqui aponta para o lado errado. A sugestão chega com cara de autoridade e nasceu de uma estatística de vizinhança.

A regência: a preposição que o verbo pede

Regência é a preposição que cada verbo exige para completar o sentido. A preposição existe, o verbo existe, e a combinação trocada passa sem nenhuma marcação na tela.

O verbo preferir, na norma escrita, liga a coisa escolhida à preterida com a preposição a, sem reforço de quantidade.

Prefiro escrever de manhã a escrever de noite.
Prefiro muito mais escrever de manhã do que de noite.

A primeira é a forma que a prova cobra. A segunda é corrente na fala brasileira, com o reforço e com do que, e as duas convivem em lugares diferentes: a fala aceita, o texto de prova pede a primeira.

Regência verbal tem capítulo próprio na Nova Gramática do Português Contemporâneo e na Moderna Gramática Portuguesa, e é lá que a lista de verbo por verbo se confere.

Teste de bolso: monte a comparação com dois verbos no infinitivo e nenhum advérbio de quantidade entre eles.

A ambiguidade: a frase certa que diz duas coisas

Frase sem defeito de forma pode dizer duas coisas ao mesmo tempo. Nenhum programa aponta, porque não existe nada para apontar.

O professor conversou com o aluno na sala dele.

De quem é a sala? A frase não decide. A saída é reescrever com a palavra que fecha o sentido: na sala do aluno, ou na própria sala.

Teste de bolso: releia a frase procurando um segundo sentido de propósito. Quando você acha um, o leitor também acha.

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O corretor continua valendo o atalho que ele é, e o limite dele tem nome: forma. Na próxima frase que você escrever com um a feminino no meio, faça a troca pelo masculino antes de mandar, e deixe a tela cuidar das letras.

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