A regra · Guia

Corretor de texto: o que ele fecha sozinho e o que fica com quem escreve

Por Redação Português do Dia · Ferramentas · Leitura de 11 minutos

Uma lupa de mão pequena, de cabo de madeira, sozinha numa superfície de papel claro e frio, sob a luz calma de manhã cedo que entra pela esquerda, com sombra macia caindo pra direita e o vermelho de revisão como única cor viva

O sublinhado vermelho aparece embaixo da palavra e some quando você troca uma letra. A pergunta que o programa respondeu ali foi uma só: essa sequência de letras consta na lista de palavras dele?

Nenhuma outra pergunta foi feita. Se a palavra existe, o sublinhado some, mesmo quando ela é a palavra errada para a frase.

Abaixo está a divisão de trabalho real. Primeiro o que o corretor fecha sozinho, e depois as decisões que continuam com quem escreve, cada uma com o teste de bolso que resolve na hora.

O que o corretor fecha sozinho

Duas coisas, e as duas são de forma, nunca de sentido.

A primeira é a grafia registrada. Quem escreve beneficiente recebe a marcação, porque a forma que consta no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, é beneficente. O mesmo caminho vale para empecilho, escrita com e no começo.

A campanha é beneficente.
O empecilho apareceu na quinta.

A segunda é a digitação: letra trocada de posição, tecla dobrada, espaço faltando no meio. O acerto aqui é quase total, porque a sequência que sobrou não é palavra de língua nenhuma.

Teste de bolso: quando a sua dúvida cabe na pergunta como se escreve, o corretor serve. A conferência final é no Vocabulário Ortográfico, que é público e pesquisável no site da Academia Brasileira de Letras.

A palavra que existe e não é a palavra da frase

Aqui o sublinhado não aparece, porque as duas formas do par são palavras registradas.

  • mau e mal. Mau é adjetivo e o contrário é bom. Mal é advérbio e o contrário é bem. Teste de bolso: troque por bom. Se couber, é mau.
  • mas e mais. Mas é conjunção e cabe no lugar de porém. Mais é quantidade e o contrário é menos. Teste de bolso: troque por porém.
  • a gente e agente. A gente equivale a nós. Agente é quem age ou quem representa alguém. Teste de bolso: troque por nós.
A gente combinou de escrever mais devagar, mas ninguém cumpriu.

A classe de cada uma está registrada no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. O programa passa por cima da troca nos três pares, porque cada palavra ali existe, e a escolha entre elas é de sentido.

A crase, que depende do que a frase quer dizer

Crase é a fusão da preposição a com o artigo a, e o acento grave marca a fusão. A fusão só acontece quando a palavra feminina vem determinada, e determinada, na prática, é quando cabe um artigo antes dela.

Vou à reunião de segunda.
Vou a reuniões toda segunda.

Na primeira frase a reunião é uma só e conhecida, o artigo entra e a fusão acontece. Na segunda, as reuniões estão soltas no plural, sem artigo, e a fusão não tem o que fundir.

Teste de bolso: troque a palavra feminina por uma masculina equivalente. Se sair ao, o acento entra, como em vou ao encontro de segunda. Se sair a sozinho, o acento fica fora, como em vou a encontros toda segunda.

O critério está na Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, e na Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara. Nenhum programa aplica o critério por você, porque ele depende de qual reunião está na sua cabeça.

A concordância que o corretor não enxerga

A ferramenta compara palavras vizinhas, e a vizinhança é o que ela enxerga melhor. O verbo, porém, concorda com o núcleo do sujeito, que às vezes está longe dele.

A lista de nomes que você mandou chegou hoje.

Quem chegou foi a lista, e não os nomes. O verbo fica no singular, com uma palavra no plural colada nele.

Teste de bolso: pergunte quem ao verbo e responda com uma palavra só. A resposta é o núcleo, e a concordância é com o núcleo.

Sugestão automática de gramática se guia pela palavra mais próxima, e a proximidade aqui aponta para o lado errado. A sugestão chega com cara de autoridade e nasceu de uma estatística de vizinhança.

A regência: a preposição que o verbo pede

Regência é a preposição que cada verbo exige para completar o sentido. A preposição existe, o verbo existe, e a combinação trocada passa sem nenhuma marcação na tela.

O verbo preferir, na norma escrita, liga a coisa escolhida à preterida com a preposição a, sem reforço de quantidade.

Prefiro escrever de manhã a escrever de noite.
Prefiro muito mais escrever de manhã do que de noite.

A primeira é a forma que a prova cobra. A segunda é corrente na fala brasileira, com o reforço e com do que, e as duas convivem em lugares diferentes: a fala aceita, o texto de prova pede a primeira.

Regência verbal tem capítulo próprio na Nova Gramática do Português Contemporâneo e na Moderna Gramática Portuguesa, e é lá que a lista de verbo por verbo se confere.

Teste de bolso: monte a comparação com dois verbos no infinitivo e nenhum advérbio de quantidade entre eles.

A ambiguidade: a frase certa que diz duas coisas

Frase sem defeito de forma pode dizer duas coisas ao mesmo tempo. Nenhum programa aponta, porque não existe nada para apontar.

O professor conversou com o aluno na sala dele.

De quem é a sala? A frase não decide. A saída é reescrever com a palavra que fecha o sentido: na sala do aluno, ou na própria sala.

Teste de bolso: releia a frase procurando um segundo sentido de propósito. Quando você acha um, o leitor também acha.

Como a ferramenta decide o que sublinhar

Entender o mecanismo explica com precisão onde ele acerta e onde ele passa reto.

A camada mais antiga é a lista. O programa guarda um dicionário interno de formas válidas, incluindo flexões, e compara cada sequência digitada com essa lista. Palavra ausente recebe o sublinhado, o que produz um efeito colateral conhecido: nome próprio, termo técnico e estrangeirismo aparecem marcados sem terem nada de errado.

A segunda camada é a sugestão. Encontrada a palavra desconhecida, o programa procura na lista as formas mais parecidas, medindo quantas operações de troca, inserção ou remoção de letra seriam necessárias para chegar até elas. É por essa razão que a sugestão costuma ser uma palavra graficamente próxima e semanticamente distante.

A terceira camada é a estatística de vizinhança. Ferramentas mais completas guardam a frequência com que sequências de duas ou três palavras aparecem juntas em grandes volumes de texto, e sinalizam combinações raras. Essa camada pega concordância entre palavras coladas e falha quando o núcleo do sujeito está longe do verbo.

A quarta camada é o conjunto de regras escritas por linguistas, que descreve padrões conhecidos de erro. Ela é boa em casos catalogados e não cobre o que não foi previsto.

O que nenhuma das quatro faz é entender a frase. Todas operam sobre forma e sobre probabilidade, e daí vem a passagem livre do par de palavras que existe nas duas versões: a revisão automática atravessa sem um único sublinhado.

O protocolo de revisão que pega o que sobra

Fechado o trabalho da máquina, sobra a parte humana, e ela rende muito mais quando segue uma ordem em vez de uma releitura genérica.

A primeira passada é o intervalo. Texto revisado logo depois de escrito é revisado pela memória de quem escreveu, que preenche automaticamente o que falta na página. Uma hora de distância já muda o resultado; um dia muda mais.

A segunda passada é a leitura em voz alta. Ela é o instrumento mais eficiente para três problemas que a tela esconde: repetição de palavra, frase longa demais e concordância que trava a boca antes de travar o olho.

A terceira passada é a conferência de dados, feita separadamente do texto. Números, datas, nomes próprios, valores e cargos são verificados um a um contra a fonte, sem ler o entorno. É a passada que evita o erro mais caro, porque erro de dado não é erro de português e não aparece em revisão de linguagem.

A quarta passada é a leitura de trás para frente, frase por frase, do fim para o começo. Ela quebra o fluxo narrativo e obriga o olho a ver cada frase isolada, o que revela erros de digitação que a leitura normal atravessa.

Uma quinta passada opcional resolve ambiguidade: releia procurando um segundo sentido de propósito, como descrito acima. As cinco somadas levam menos tempo que uma releitura sem método, e pegam categorias diferentes de problema.

O que muda com as ferramentas mais novas

Assistentes de escrita baseados em modelos de linguagem mudaram o alcance da revisão automática, e vale saber exatamente o que mudou.

O ganho é real em três frentes. Eles pegam concordância a distância com muito mais frequência que os corretores tradicionais, sugerem reescrita de frase longa e identificam parte das ambiguidades, porque operam sobre sequências longas em vez de sobre vizinhança imediata.

As limitações também são específicas. A primeira é que eles alteram sentido ao reescrever, às vezes de forma sutil, trocando uma ressalva por uma afirmação ou suavizando uma negativa. A segunda é que eles não verificam fato: número, data e nome próprio saem da revisão exatamente como entraram, ou pior, alterados para uma forma mais frequente. A terceira é que eles tendem a uniformizar estilo, apagando escolhas deliberadas de quem escreve.

O procedimento que aproveita o ganho sem pagar o preço tem dois passos. Primeiro, aceitar sugestão uma a uma, comparando a frase original com a proposta, em vez de aplicar tudo de uma vez. Segundo, manter a conferência de dados como passada independente, feita por pessoa, sempre depois da revisão automática.

A divisão de trabalho continua a mesma deste texto, com a fronteira deslocada: a máquina cuida da forma e agora de parte da estrutura, e o sentido, o fato e a intenção continuam com quem assina.

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O corretor continua valendo o atalho que ele é, e o limite dele tem nome: forma. Na próxima frase que você escrever com um a feminino no meio, faça a troca pelo masculino antes de mandar, e deixe a tela cuidar das letras.

Perguntas frequentes

O corretor automático pega todos os erros?

Não. Ele responde uma pergunta só: essa sequência de letras consta na lista de palavras dele. Se a palavra existe, o sublinhado some, mesmo quando ela é a palavra errada para a frase. Crase, concordância a distância, regência e ambiguidade continuam com quem escreve.

Por que o corretor não marca "mau" no lugar de "mal"?

Porque as duas formas são palavras registradas. O programa não avalia sentido, e a escolha entre elas é semântica. O mesmo vale para mas e mais, e para a gente e agente. O teste é a substituição: troque mau por bom, mas por porém, a gente por nós.

Como o corretor decide o que sublinhar?

Por quatro camadas: uma lista interna de formas válidas, uma medida de semelhança gráfica para sugerir substitutas, uma estatística de frequência de palavras vizinhas e um conjunto de regras escritas por linguistas. Nenhuma delas entende a frase.

Por que ele sublinha nomes próprios?

Porque eles não constam da lista interna de formas válidas. O sublinhado indica ausência do dicionário do programa, e não erro. O mesmo acontece com termos técnicos e estrangeirismos, e a maioria das ferramentas permite adicionar essas palavras ao dicionário do usuário.

As ferramentas com inteligência artificial resolvem o problema?

Ampliam o alcance e mudam a fronteira. Elas pegam concordância a distância com mais frequência e sugerem reescrita de frase longa, e em troca alteram sentido ao reescrever, não verificam fato e tendem a uniformizar estilo. A recomendação é aceitar sugestão uma a uma, comparando com o original.

Qual a melhor forma de revisar um texto?

Em passadas separadas, cada uma com um alvo: um intervalo de tempo antes de começar, leitura em voz alta para repetição e frase longa, conferência de números, datas e nomes contra a fonte, e leitura de trás para frente para erro de digitação. Somadas, levam menos tempo que uma releitura sem método.

Onde conferir a grafia oficial de uma palavra?

No Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, publicado pela Academia Brasileira de Letras e pesquisável no site da entidade. Ele responde como se escreve, qual a classe gramatical, o gênero e o plural, e não traz definição, que é assunto de dicionário de uso.

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