A regra · Regra

Concordância verbal: os cinco tipos de sujeito que enganam o verbo

Concordância · Leitura de 4 minutos

Um clipe de papel prendendo um maço de fichas pautadas, sozinho numa superfície de papel claro e frio, sob a luz calma de manhã cedo que entra pela esquerda, com sombra macia caindo pra direita e o vermelho de revisão como única cor viva

Concordância verbal é o verbo ajustando número e pessoa ao sujeito. Quando o sujeito é uma palavra só e vem antes, ninguém erra.

A dúvida nasce quando o sujeito muda de forma: ele se parte em dois, ele aparece depois do verbo, ele vira um nome coletivo ou ele se esconde atrás de uma expressão de quantidade.

Cada seção abaixo trata de um tipo de sujeito, com a regra na primeira linha, o teste que resolve a próxima frase e a fonte que registra a regra.

Sujeito composto antes do verbo

A regra: dois ou mais núcleos ligados por "e" formam sujeito composto, e o verbo vai para o plural.

O diretor e a coordenadora assinaram o parecer.

O teste de bolso: troque o sujeito inteiro por um pronome. Cabendo "eles" ou "elas", o verbo fica no plural.

Três construções fogem do plural, e as três estão registradas na Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra.

A primeira é o "ou" que exclui: havendo escolha entre um e outro, o verbo fica no singular.

Pedro ou Ana será o novo representante.

A segunda é a série resumida por um pronome indefinido. O resumo passa a ser o sujeito, e o verbo concorda com ele.

Livro, caderno, caneta, tudo cabia na mochila.

A terceira é a série de sinônimos ou de gradação, em que a tradição normativa aceita as duas formas. Com "nem" repetido, o plural é o mais usado e o singular também está registrado.

Nem a chuva nem o frio atrapalharam a prova.

Sujeito depois do verbo

A regra: a posição não muda nada. O verbo concorda com o sujeito mesmo quando o sujeito vem atrás.

Faltam duas semanas para a entrega.
Restaram três vagas no turno da manhã.
Existem duas versões do documento.

A pegadinha mora aí: com o sujeito atrás, o verbo tende a puxar para o singular por hábito de fala. A norma escrita cobra o plural, e a discordância entre a fala e a escrita é conhecida.

O verbo "existir" merece nota, porque cai nesse desenho e engana pela frequência. Ele tem sujeito, o sujeito é o que existe, e o plural entra sempre que o sujeito estiver no plural.

O teste de bolso: reescreva a frase com o sujeito na frente do verbo. A forma verbal que aparecer na versão reescrita é a que vale na versão original.

Duas semanas faltam para a entrega.

Com sujeito composto posposto, a tradição normativa aceita as duas formas: o plural, que é o mais seguro, e a concordância com o núcleo mais próximo, que Cunha e Cintra registram como corrente.

Chegaram o convite e o crachá.
Chegou o convite e o crachá.

Coletivo no singular, com uma janela para o plural

A regra: o coletivo é uma palavra no singular e o verbo fica no singular, ainda que a ideia seja de muita gente.

A turma decidiu adiar a viagem.
O casal comprou a passagem.

O teste de bolso: cubra o resto da frase e leia apenas o núcleo do sujeito. Sendo uma palavra no singular, o verbo acompanha o singular.

A janela se abre quando o coletivo vem seguido de um complemento no plural. Aí a tradição normativa aceita as duas formas, e as duas estão registradas em Cunha e Cintra.

Um grupo de alunos assinou a lista.
Um grupo de alunos assinaram a lista.

A escolha entre as duas é de quem escreve, com uma condição prática: mantenha a mesma escolha até o fim do parágrafo. O texto que troca de concordância no meio perde o leitor sem avisar.

Expressão partitiva e porcentagem

A regra: com "a maioria de", "grande parte de", "metade de" e parentes, a concordância gramatical vai com a expressão, no singular, e a concordância com o termo no plural também é aceita.

A maioria dos candidatos entregou a prova antes do fim.
A maioria dos candidatos entregaram a prova antes do fim.

Bechara, na Moderna Gramática Portuguesa, trata as duas construções como legítimas, com sentidos ligeiramente diferentes: o singular olha para o conjunto, o plural olha para as pessoas.

A porcentagem tem regra própria e mais firme: o verbo concorda com o número que acompanha o símbolo.

Faltaram 20% dos alunos.
Falta 1% do total previsto.

Vindo determinante antes da porcentagem, o determinante manda na concordância.

Os 20% restantes foram devolvidos ao caixa.

O teste de bolso: tape a expressão de quantidade com a mão e leia o que sobra. A palavra que resta como núcleo é a que o verbo procura.

O caso de "um dos que"

A regra: a tradição normativa prefere o plural, porque o verbo concorda com o pronome "que", cujo antecedente está no plural.

Ele foi um dos que assinaram o documento.

O teste de bolso: desdobre a frase em duas orações independentes. A forma verbal que sobreviver ao desdobramento é a que vale.

Muitos assinaram o documento. Ele é um deles.

O ponto é discutido, e vale dizer que é. O singular aparece em autor de prestígio e parte da tradição o aceita, com o argumento de que a atenção recai sobre um indivíduo só. A prova cobra o plural, e o singular não está condenado por toda a tradição.

Perto dele mora o par "que" e "quem", com comportamento diferente entre os dois.

Fui eu que paguei a conta.
Fui eu quem pagou a conta.

Com "que", o verbo concorda com o sujeito anterior. Com "quem", a terceira pessoa do singular é a construção mais registrada, e a concordância com o antecedente também aparece na tradição.

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A frase que você vai escrever hoje quase sempre cai em dois dos cinco tipos: o sujeito que veio depois do verbo e a expressão de quantidade no meio do caminho. Reescreva a frase com o sujeito na frente, tape a quantidade com a mão, e o verbo aparece sozinho na forma certa.

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