A regra · Regra

Concordância verbal: os cinco tipos de sujeito que enganam o verbo

Por Redação Português do Dia · Concordância · Leitura de 11 minutos

Um clipe de papel prendendo um maço de fichas pautadas, sozinho numa superfície de papel claro e frio, sob a luz calma de manhã cedo que entra pela esquerda, com sombra macia caindo pra direita e o vermelho de revisão como única cor viva

Concordância verbal é o verbo ajustando número e pessoa ao sujeito. Quando o sujeito é uma palavra só e vem antes, ninguém erra.

A dúvida nasce quando o sujeito muda de forma: ele se parte em dois, ele aparece depois do verbo, ele vira um nome coletivo ou ele se esconde atrás de uma expressão de quantidade.

Cada seção abaixo trata de um tipo de sujeito, com a regra na primeira linha, o teste que resolve a próxima frase e a fonte que registra a regra.

Sujeito composto antes do verbo

A regra: dois ou mais núcleos ligados por "e" formam sujeito composto, e o verbo vai para o plural.

O diretor e a coordenadora assinaram o parecer.

O teste de bolso: troque o sujeito inteiro por um pronome. Cabendo "eles" ou "elas", o verbo fica no plural.

Três construções fogem do plural, e as três estão registradas na Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra.

A primeira é o "ou" que exclui: havendo escolha entre um e outro, o verbo fica no singular.

Pedro ou Ana será o novo representante.

A segunda é a série resumida por um pronome indefinido. O resumo passa a ser o sujeito, e o verbo concorda com ele.

Livro, caderno, caneta, tudo cabia na mochila.

A terceira é a série de sinônimos ou de gradação, em que a tradição normativa aceita as duas formas. Com "nem" repetido, o plural é o mais usado e o singular também está registrado.

Nem a chuva nem o frio atrapalharam a prova.

Sujeito depois do verbo

A regra: a posição não muda nada. O verbo concorda com o sujeito mesmo quando o sujeito vem atrás.

Faltam duas semanas para a entrega.
Restaram três vagas no turno da manhã.
Existem duas versões do documento.

A pegadinha mora aí: com o sujeito atrás, o verbo tende a puxar para o singular por hábito de fala. A norma escrita cobra o plural, e a discordância entre a fala e a escrita é conhecida.

O verbo "existir" merece nota, porque cai nesse desenho e engana pela frequência. Ele tem sujeito, o sujeito é o que existe, e o plural entra sempre que o sujeito estiver no plural.

O teste de bolso: reescreva a frase com o sujeito na frente do verbo. A forma verbal que aparecer na versão reescrita é a que vale na versão original.

Duas semanas faltam para a entrega.

Com sujeito composto posposto, a tradição normativa aceita as duas formas: o plural, que é o mais seguro, e a concordância com o núcleo mais próximo, que Cunha e Cintra registram como corrente.

Chegaram o convite e o crachá.
Chegou o convite e o crachá.

Coletivo no singular, com uma janela para o plural

A regra: o coletivo é uma palavra no singular e o verbo fica no singular, ainda que a ideia seja de muita gente.

A turma decidiu adiar a viagem.
O casal comprou a passagem.

O teste de bolso: cubra o resto da frase e leia apenas o núcleo do sujeito. Sendo uma palavra no singular, o verbo acompanha o singular.

A janela se abre quando o coletivo vem seguido de um complemento no plural. Aí a tradição normativa aceita as duas formas, e as duas estão registradas em Cunha e Cintra.

Um grupo de alunos assinou a lista.
Um grupo de alunos assinaram a lista.

A escolha entre as duas é de quem escreve, com uma condição prática: mantenha a mesma escolha até o fim do parágrafo. O texto que troca de concordância no meio perde o leitor sem avisar.

Expressão partitiva e porcentagem

A regra: com "a maioria de", "grande parte de", "metade de" e parentes, a concordância gramatical vai com a expressão, no singular, e a concordância com o termo no plural também é aceita.

A maioria dos candidatos entregou a prova antes do fim.
A maioria dos candidatos entregaram a prova antes do fim.

Bechara, na Moderna Gramática Portuguesa, trata as duas construções como legítimas, com sentidos ligeiramente diferentes: o singular olha para o conjunto, o plural olha para as pessoas.

A porcentagem tem regra própria e mais firme: o verbo concorda com o número que acompanha o símbolo.

Faltaram 20% dos alunos.
Falta 1% do total previsto.

Vindo determinante antes da porcentagem, o determinante manda na concordância.

Os 20% restantes foram devolvidos ao caixa.

O teste de bolso: tape a expressão de quantidade com a mão e leia o que sobra. A palavra que resta como núcleo é a que o verbo procura.

O caso de "um dos que"

A regra: a tradição normativa prefere o plural, porque o verbo concorda com o pronome "que", cujo antecedente está no plural.

Ele foi um dos que assinaram o documento.

O teste de bolso: desdobre a frase em duas orações independentes. A forma verbal que sobreviver ao desdobramento é a que vale.

Muitos assinaram o documento. Ele é um deles.

O ponto é discutido, e vale dizer que é. O singular aparece em autor de prestígio e parte da tradição o aceita, com o argumento de que a atenção recai sobre um indivíduo só. A prova cobra o plural, e o singular não está condenado por toda a tradição.

Perto dele mora o par "que" e "quem", com comportamento diferente entre os dois.

Fui eu que paguei a conta.
Fui eu quem pagou a conta.

Com "que", o verbo concorda com o sujeito anterior. Com "quem", a terceira pessoa do singular é a construção mais registrada, e a concordância com o antecedente também aparece na tradição.

O sexto tipo: o sujeito que não existe

Existe uma categoria de verbo que não tem sujeito nenhum, e ela responde por uma parte grande dos erros de concordância em texto profissional. São os verbos impessoais, que ficam obrigatoriamente na terceira pessoa do singular.

O caso mais cobrado é o verbo haver no sentido de existir ou de acontecer. Como ele não tem sujeito, o termo que vem depois é complemento, e o verbo não acompanha o plural dele.

Houve problemas na entrega.
Havia duas versões do documento.

Compare com o verbo existir, tratado na seção anterior: ele tem sujeito e vai ao plural. É a diferença entre houve problemas e existiram problemas, com as duas frases corretas e apenas uma delas admitindo plural no verbo.

O segundo caso é o verbo fazer indicando tempo decorrido, também impessoal.

Faz dez anos que ele trabalha aqui.

O terceiro grupo reúne os verbos que descrevem fenômeno natural em sentido próprio, como chover, nevar e amanhecer. Usados em sentido figurado, eles ganham sujeito e voltam a concordar normalmente, como em choveram reclamações.

Um detalhe importante fecha o assunto: quando um verbo impessoal vem acompanhado de auxiliar, a impessoalidade se transmite ao auxiliar, e é ele que fica no singular. Escreve-se deve haver duas versões, e não devem haver duas versões.

O teste de bolso: troque o verbo por existir. Se a frase mudar de sentido ou soar estranha, o verbo é impessoal e fica no singular.

O "se" que muda tudo na placa da vitrine

Duas construções com a palavra "se" produzem concordâncias opostas, e distinguir as duas resolve o erro mais visível do comércio brasileiro.

Na primeira, o "se" é partícula apassivadora, e a frase equivale a uma voz passiva. O termo que aparece é sujeito, e o verbo concorda com ele.

Alugam-se casas.
Vende-se apartamento.

A prova é a reescrita: casas são alugadas, apartamento é vendido. Cabendo a reescrita na voz passiva, o verbo acompanha o número do termo.

Na segunda, o "se" é índice de indeterminação do sujeito, e aparece com verbo que não admite complemento direto. Aqui o verbo fica obrigatoriamente no singular.

Precisa-se de vendedores.
Trata-se de dois casos distintos.

A reescrita agora não funciona: vendedores não são precisados. A diferença está na preposição, e é ela que denuncia o tipo de construção.

O teste de bolso: tente reescrever a frase começando pelo termo, na voz passiva. Se sair natural, o verbo concorda com ele; se não sair, o verbo fica no singular.

O verbo ser, que às vezes concorda com o outro lado

O verbo ser tem um comportamento próprio e é o único que, em determinadas construções, concorda com o predicativo em vez do sujeito.

A situação mais comum aparece quando o sujeito é um pronome neutro, uma palavra de sentido coletivo genérico ou uma expressão de quantidade, e o predicativo está no plural.

Tudo são flores no começo do projeto.
O resto eram detalhes de formatação.

A regra também vale nas construções que indicam tempo, distância e quantidade, em que o verbo acompanha o numeral.

São três horas de reunião.
É uma hora apenas.

Existe ainda o caso das expressões fixas de quantidade, em que a tradição normativa registra o singular independentemente do número que vem depois.

É muito dez páginas para um resumo.
Era pouco duas semanas para a entrega.

Quando o sujeito é nome de pessoa ou pronome pessoal, a preferência volta ao normal e o verbo concorda com ele, e não com o predicativo.

Marina era as esperanças do time.

O teste de bolso: identifique se o sujeito é palavra de sentido vago, como tudo, isto, o resto e o mais. Sendo, o verbo pode acompanhar o predicativo no plural, e as duas leituras estão registradas na tradição.

Tratamento, nomes de lugar e títulos

Três situações específicas fecham a lista dos sujeitos que enganam.

Pronomes de tratamento pedem verbo na terceira pessoa, mesmo se referindo a quem está sendo interpelado. Escreve-se Vossa Excelência assinou o documento, e não Vossa Excelência assinastes.

Nomes de lugar no plural pedem atenção ao artigo. Havendo artigo no plural, o verbo vai ao plural; sem artigo, o verbo fica no singular.

Os Estados Unidos aprovaram a proposta.
Minas Gerais produz muito café.

Títulos de obra seguem lógica parecida. Com artigo no plural, o verbo acompanha; sem artigo, a tradição normativa registra o singular, e a construção mais segura é anteceder o título por uma palavra como livro, obra ou filme, o que elimina a dúvida de vez.

O teste de bolso comum aos três casos: procure o artigo. Ele é quem decide, e a ausência dele quase sempre empurra o verbo para o singular.

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A frase que você vai escrever hoje quase sempre cai em dois dos cinco tipos: o sujeito que veio depois do verbo e a expressão de quantidade no meio do caminho. Reescreva a frase com o sujeito na frente, tape a quantidade com a mão, e o verbo aparece sozinho na forma certa.

Perguntas frequentes

É "houve problemas" ou "houveram problemas"?

Houve problemas. O verbo haver no sentido de existir ou acontecer é impessoal, não tem sujeito, e fica sempre na terceira pessoa do singular. O termo que vem depois é complemento. Com o verbo existir, que tem sujeito, o plural entra: existiram problemas.

É "faltam duas semanas" ou "falta duas semanas"?

Faltam duas semanas. A posição do sujeito não muda a concordância, e o verbo acompanha o sujeito mesmo quando ele vem atrás. O teste é reescrever com o sujeito na frente: duas semanas faltam para a entrega.

Como concordar com "a maioria dos"?

As duas formas são aceitas na tradição normativa, com sentidos ligeiramente diferentes: o singular olha para o conjunto e o plural olha para as pessoas. A maioria dos candidatos entregou e a maioria dos candidatos entregaram estão ambas registradas.

É "aluga-se casas" ou "alugam-se casas"?

Alugam-se casas. O "se" ali é partícula apassivadora, e a frase equivale a casas são alugadas, com casas funcionando como sujeito. Quando a reescrita na voz passiva não funciona, como em precisa-se de vendedores, o verbo fica no singular.

É "um dos que assinou" ou "um dos que assinaram"?

A tradição normativa prefere o plural, porque o verbo concorda com o pronome que, cujo antecedente está no plural. O singular aparece em autor de prestígio e parte da tradição o aceita, mas a prova cobra o plural.

Coletivo leva verbo no singular?

Sim, porque o coletivo é uma palavra no singular, ainda que a ideia seja de muita gente: a turma decidiu, o casal comprou. Vindo seguido de complemento no plural, as duas formas são aceitas, e a recomendação prática é manter a mesma escolha até o fim do parágrafo.

Como concordar com nomes de lugar no plural?

Pelo artigo. Havendo artigo no plural, o verbo vai ao plural, como em os Estados Unidos aprovaram a proposta; sem artigo, o verbo fica no singular, como em Minas Gerais produz muito café. A mesma lógica vale para títulos de obra.

Como concordar com porcentagem?

Com o número que acompanha o símbolo: faltaram 20% dos alunos, falta 1% do total. Havendo determinante antes da porcentagem, é ele quem manda, como em os 20% restantes foram devolvidos.

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