A regra · Guia

Gramática: as três coisas diferentes que a palavra nomeia

Por Redação Português do Dia · Norma · Leitura de 11 minutos

Uma régua de madeira apoiada na mesa, sozinha numa superfície de papel claro e frio, sob a luz calma de manhã cedo que entra pela esquerda, com sombra macia caindo pra direita e o vermelho de revisão como única cor viva

A palavra gramática nomeia três coisas diferentes, e a maior parte das discussões sobre português acontece porque duas pessoas usam a palavra em sentidos distintos.

Uma delas é um conjunto de regras da escrita de prestígio. Outra é a descrição do que os falantes de fato fazem. A terceira é o sistema que qualquer falante já traz na cabeça sem ter estudado.

Separar as três resolve mais dúvida do que decorar regra, porque quase toda pergunta do tipo "está certo ou está errado?" na verdade pergunta "certo em qual das três?".

Cada seção abaixo apresenta uma delas, com o que ela decide, o teste que você aplica na próxima frase e o lugar onde ela está registrada.

A primeira: a norma escrita, que é um acordo de registro

A gramática normativa é o conjunto de regras da variedade escrita de prestígio, fixada em obras de referência e cobrada em documento, em concurso e em texto publicado.

Ela não descreve tudo o que se diz em português. Ela recorta uma variedade e a organiza, com regras de concordância, de regência, de colocação e de pontuação.

No Brasil, as duas obras mais citadas nessa função são a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, e a Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara.

Duas notas mudam o modo de ler uma regra normativa. A primeira: elas próprias registram divergência entre autores, e o desacordo faz parte da obra. A segunda: onde a norma aceita duas formas, a obra costuma dizer qual é a mais frequente na escrita cuidada.

O teste de bolso: pergunte para onde o texto vai. Indo para um documento assinado, para uma prova ou para publicação, a norma escrita é a régua da frase.

A segunda: a descrição do que o falante faz

A gramática descritiva registra o uso como ele acontece, sem dizer se deveria acontecer. Ela é o trabalho da linguística, e o critério dela é a observação.

Uma descrição não é uma permissão. Dizer que o brasileiro usa determinada construção não é dizer que a construção passa numa prova, e as duas afirmações convivem sem se contradizer.

O que a descrição faz de útil para quem escreve é mostrar o tamanho da distância. Construção usada por toda a população, inclusive por quem escreve profissionalmente, tem status diferente de construção restrita a uma região ou a um grupo.

O caso do pronome "a gente" é o mais visível. O uso brasileiro consolidou a forma como sujeito de primeira pessoa do plural, e a concordância vai no singular.

A gente chegou cedo na sala.
Nós chegamos cedo na sala.

O teste de bolso: pergunte se a frase foi dita ou escrita. A descrição cobre as duas situações, e a norma escrita cobra apenas a segunda.

A terceira: a gramática que o falante já traz

Antes de qualquer aula, um falante de português monta frases complexas sem saber nomear nada do que fez. Ele acerta a ordem das palavras, a flexão dos verbos irregulares e a concordância entre nome e adjetivo.

A prova está no incômodo. Ninguém precisa de regra escrita para rejeitar as sequências abaixo, e o desconforto chega antes de qualquer explicação.

A casa branco caiu.
Ontem eu fazi o almoço.

Essa competência interna vem da língua ouvida na infância e funciona em qualquer variedade. Quem cresceu falando uma variedade distante da norma escrita não tem menos gramática, tem outra.

O teste de bolso: leia a frase em voz alta e observe se o incômodo aparece antes da regra. Aparecendo, o conhecimento interno já respondeu, e a consulta serve só para confirmar.

Onde as três brigam, num caso concreto

O pronome no começo da frase é o melhor exemplo do desencontro entre as três.

Me empresta a caneta.
Empresta-me a caneta.

A gramática interna do brasileiro produz a primeira. A descrição registra a primeira como corrente em todo o país. E a norma escrita tradicional, formulada com base no uso literário português, cobra a segunda.

Aqui mora uma lenda antiga de sala de aula: a de que nunca se começa uma frase com pronome oblíquo. A Nova Gramática do Português Contemporâneo registra que a próclise inicial, com o pronome antes do verbo, é geral na fala brasileira e aparece na escrita literária do país.

A conclusão prática não é escolher um lado para sempre. É saber que a construção tem registro na tradição brasileira, e que a prova costuma cobrar a colocação da norma tradicional.

O teste de bolso: pergunte "está escrito onde?" antes de aceitar uma proibição categórica. Regra sem fonte localizável costuma ser hábito de professor, e não norma.

Qual das três a prova cobra

A regra: a prova cobra a norma escrita, e cobra o recorte dela que está nas gramáticas de referência.

A consequência é direta. Quem estuda para uma prova estuda uma variedade específica, com regras de concordância, regência, crase e pontuação, e a fala do dia a dia continua intacta fora da folha de respostas.

A consequência inversa também vale. Fora da prova, o texto tem outro destinatário, e a escolha entre duas formas aceitas passa a ser de adequação, não de correção.

O teste de bolso: antes de mudar uma frase, pergunte quem vai ler. A resposta escolhe qual das três gramáticas manda naquela linha.

As partes em que a gramática se divide

Abrir uma gramática de referência sem saber onde procurar custa tempo, e a organização interna delas é sempre parecida.

A fonética e a fonologia tratam dos sons: como são produzidos e como se organizam em sistema. É a parte que explica por que certas letras representam sons diferentes conforme a posição na palavra.

A morfologia trata da forma das palavras: as classes, a flexão de gênero, número e grau, a conjugação verbal e os processos de formação, como derivação e composição. É a seção consultada quando a dúvida é sobre plural irregular ou sobre a forma de um verbo defectivo.

A sintaxe trata da combinação das palavras na frase: sujeito, predicado, complementos, orações coordenadas e subordinadas. É a parte mais cobrada em prova, e a que sustenta as regras de concordância e de regência.

A semântica trata do significado, incluindo sinonímia, antonímia, polissemia e ambiguidade estrutural. A estilística trata dos efeitos de sentido produzidos por escolhas de linguagem.

A ortografia, embora apareça em capítulo próprio nas gramáticas, é o único desses domínios definido por acordo entre países. Ela muda por decisão política, e não por descrição de uso, o que explica por que uma reforma ortográfica altera a escrita de um dia para o outro sem alterar a língua falada.

Como consultar uma dúvida sem se perder

Boa parte do tempo perdido em dúvida de português vem de procurar a resposta na fonte errada. Quatro tipos de dúvida pedem quatro fontes diferentes.

Dúvida de escrita de palavra, com ou sem hífen, com ou sem acento, é assunto de vocabulário ortográfico. No Brasil, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, publicado pela Academia Brasileira de Letras, é a referência oficial, e ele responde por escrita, não por significado.

Dúvida de significado ou de qual preposição um verbo pede é assunto de dicionário, e os dicionários de referência trazem a regência verbal junto da definição, com exemplos.

Dúvida de estrutura da frase, concordância, colocação de pronome ou pontuação é assunto de gramática de referência, e vale consultar duas em vez de uma, porque as divergências entre autores são justamente o que informa o quanto a regra é firme.

Dúvida sobre se determinada construção é usada é assunto de descrição, e a resposta vem de corpus, de pesquisa linguística ou de observação sistemática, nunca de opinião.

Existe ainda um quinto caso, o mais comum de todos: a regra que alguém afirmou sem indicar fonte. Diante dela, a pergunta que resolve é onde está escrito, e a ausência de resposta costuma indicar hábito de sala de aula em vez de norma.

Linha do tempo da gramática do português

  1. 1536Fernão de Oliveira publica a primeira gramática da língua portuguesa, obra que descreve a língua num momento em que ela ainda disputava espaço com o latim na escrita culta.
  2. 1540João de Barros publica a segunda gramática portuguesa, associada a um projeto de ensino e de difusão da língua.
  3. 1911Portugal adota a primeira reforma ortográfica sistemática, e a escrita da língua passa a ter norma organizada por decisão oficial.
  4. 1943O Brasil aprova o formulário ortográfico que organiza a acentuação e a escrita no país.
  5. 1959É publicada no Brasil a nomenclatura gramatical que padroniza os termos usados no ensino, unificando o vocabulário de análise que antes variava de autor para autor.
  6. 1990É assinado o acordo ortográfico entre os países de língua portuguesa, com vigência no Brasil a partir de 2009 e fim do período de transição em 2016.

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Na próxima vez que alguém disser que uma frase sua está errada, a pergunta que resolve tem seis palavras: errada em qual das três? A resposta muda a conversa de lugar, e costuma mostrar que a divergência é de destino do texto, não de língua.

Perguntas frequentes

O que é gramática?

A palavra nomeia três coisas diferentes: o conjunto de regras da escrita de prestígio, chamado de gramática normativa; a descrição do que os falantes de fato fazem, chamada de gramática descritiva; e o sistema que qualquer falante já traz na cabeça sem ter estudado, a gramática internalizada.

Qual a diferença entre gramática normativa e descritiva?

A normativa recorta uma variedade escrita e a organiza em regras, cobradas em documento, prova e publicação. A descritiva registra o uso como ele acontece, sem dizer se deveria acontecer. Descrever um uso não é autorizá-lo numa prova, e as duas afirmações convivem sem se contradizer.

Pode começar frase com pronome oblíquo?

A construção é geral na fala brasileira e aparece na escrita literária do país, o que a Nova Gramática do Português Contemporâneo registra. A norma tradicional, formulada com base no uso literário português, cobra a outra colocação, e é ela que a prova costuma exigir.

Quais são as partes da gramática?

Fonética e fonologia tratam dos sons; morfologia, da forma e da flexão das palavras; sintaxe, da combinação delas na frase; semântica, do significado; e estilística, dos efeitos de sentido. A ortografia aparece em capítulo próprio e é o único domínio definido por acordo entre países.

Onde consultar uma dúvida de português?

Depende do tipo. Escrita de palavra, acento e hífen são assunto de vocabulário ortográfico. Significado e regência, de dicionário. Estrutura da frase, concordância e pontuação, de gramática de referência. Se determinada construção é usada de fato, de pesquisa linguística.

Quais são as gramáticas de referência do português brasileiro?

As duas mais citadas são a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, e a Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara. Vale consultar as duas, porque as divergências entre autores mostram o quanto cada regra é firme.

Por que professores diferentes usam os mesmos nomes gramaticais?

Por causa da nomenclatura gramatical adotada oficialmente no Brasil no fim da década de 1950, que padronizou os termos usados no ensino. Antes dela, cada gramático usava terminologia própria, e o mesmo termo da frase podia receber três nomes distintos em três livros.

Falar diferente da norma é falar errado?

Quem cresceu falando uma variedade distante da norma escrita não tem menos gramática, tem outra, e produz frases complexas com flexão e concordância consistentes. A norma escrita é um acordo de registro para determinados contextos, e a pergunta útil diante de uma frase é para onde o texto vai.

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