A regra · Guia

Gramática: as três coisas diferentes que a palavra nomeia

Norma · Leitura de 4 minutos

Uma régua de madeira apoiada na mesa, sozinha numa superfície de papel claro e frio, sob a luz calma de manhã cedo que entra pela esquerda, com sombra macia caindo pra direita e o vermelho de revisão como única cor viva

A palavra gramática nomeia três coisas diferentes, e a maior parte das discussões sobre português acontece porque duas pessoas usam a palavra em sentidos distintos.

Uma delas é um conjunto de regras da escrita de prestígio. Outra é a descrição do que os falantes de fato fazem. A terceira é o sistema que qualquer falante já traz na cabeça sem ter estudado.

Separar as três resolve mais dúvida do que decorar regra, porque quase toda pergunta do tipo "está certo ou está errado?" na verdade pergunta "certo em qual das três?".

Cada seção abaixo apresenta uma delas, com o que ela decide, o teste que você aplica na próxima frase e o lugar onde ela está registrada.

A primeira: a norma escrita, que é um acordo de registro

A gramática normativa é o conjunto de regras da variedade escrita de prestígio, fixada em obras de referência e cobrada em documento, em concurso e em texto publicado.

Ela não descreve tudo o que se diz em português. Ela recorta uma variedade e a organiza, com regras de concordância, de regência, de colocação e de pontuação.

No Brasil, as duas obras mais citadas nessa função são a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, e a Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara.

Duas notas mudam o modo de ler uma regra normativa. A primeira: elas próprias registram divergência entre autores, e o desacordo faz parte da obra. A segunda: onde a norma aceita duas formas, a obra costuma dizer qual é a mais frequente na escrita cuidada.

O teste de bolso: pergunte para onde o texto vai. Indo para um documento assinado, para uma prova ou para publicação, a norma escrita é a régua da frase.

A segunda: a descrição do que o falante faz

A gramática descritiva registra o uso como ele acontece, sem dizer se deveria acontecer. Ela é o trabalho da linguística, e o critério dela é a observação.

Uma descrição não é uma permissão. Dizer que o brasileiro usa determinada construção não é dizer que a construção passa numa prova, e as duas afirmações convivem sem se contradizer.

O que a descrição faz de útil para quem escreve é mostrar o tamanho da distância. Construção usada por toda a população, inclusive por quem escreve profissionalmente, tem status diferente de construção restrita a uma região ou a um grupo.

O caso do pronome "a gente" é o mais visível. O uso brasileiro consolidou a forma como sujeito de primeira pessoa do plural, e a concordância vai no singular.

A gente chegou cedo na sala.
Nós chegamos cedo na sala.

O teste de bolso: pergunte se a frase foi dita ou escrita. A descrição cobre as duas situações, e a norma escrita cobra apenas a segunda.

A terceira: a gramática que o falante já traz

Antes de qualquer aula, um falante de português monta frases complexas sem saber nomear nada do que fez. Ele acerta a ordem das palavras, a flexão dos verbos irregulares e a concordância entre nome e adjetivo.

A prova está no incômodo. Ninguém precisa de regra escrita para rejeitar as sequências abaixo, e o desconforto chega antes de qualquer explicação.

A casa branco caiu.
Ontem eu fazi o almoço.

Essa competência interna vem da língua ouvida na infância e funciona em qualquer variedade. Quem cresceu falando uma variedade distante da norma escrita não tem menos gramática, tem outra.

O teste de bolso: leia a frase em voz alta e observe se o incômodo aparece antes da regra. Aparecendo, o conhecimento interno já respondeu, e a consulta serve só para confirmar.

Onde as três brigam, num caso concreto

O pronome no começo da frase é o melhor exemplo do desencontro entre as três.

Me empresta a caneta.
Empresta-me a caneta.

A gramática interna do brasileiro produz a primeira. A descrição registra a primeira como corrente em todo o país. E a norma escrita tradicional, formulada com base no uso literário português, cobra a segunda.

Aqui mora uma lenda antiga de sala de aula: a de que nunca se começa uma frase com pronome oblíquo. A Nova Gramática do Português Contemporâneo registra que a próclise inicial, com o pronome antes do verbo, é geral na fala brasileira e aparece na escrita literária do país.

A conclusão prática não é escolher um lado para sempre. É saber que a construção tem registro na tradição brasileira, e que a prova costuma cobrar a colocação da norma tradicional.

O teste de bolso: pergunte "está escrito onde?" antes de aceitar uma proibição categórica. Regra sem fonte localizável costuma ser hábito de professor, e não norma.

Qual das três a prova cobra

A regra: a prova cobra a norma escrita, e cobra o recorte dela que está nas gramáticas de referência.

A consequência é direta. Quem estuda para uma prova estuda uma variedade específica, com regras de concordância, regência, crase e pontuação, e a fala do dia a dia continua intacta fora da folha de respostas.

A consequência inversa também vale. Fora da prova, o texto tem outro destinatário, e a escolha entre duas formas aceitas passa a ser de adequação, não de correção.

O teste de bolso: antes de mudar uma frase, pergunte quem vai ler. A resposta escolhe qual das três gramáticas manda naquela linha.

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Na próxima vez que alguém disser que uma frase sua está errada, a pergunta que resolve tem seis palavras: errada em qual das três? A resposta muda a conversa de lugar, e costuma mostrar que a divergência é de destino do texto, não de língua.

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