A regra · Regra

Colocação pronominal: as três posições e quem manda em cada uma

Por Redação Português do Dia · Pronome · Leitura de 11 minutos

Um caderno fechado com um elástico atravessado, sozinho numa superfície de papel claro e frio, sob a luz calma de manhã cedo que entra pela esquerda, com sombra macia caindo pra direita e o vermelho de revisão como única cor viva

O pronome oblíquo átono tem três lugares possíveis perto do verbo. O grupo é pequeno e conhecido: me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes.

A escolha do lugar não depende do gosto de quem escreve. Ela depende de uma palavra que aparece antes do verbo e do tempo em que o verbo está.

Antes do verbo é próclise. Depois do verbo, preso por hífen, é ênclise. Dentro do verbo, também com hífen, é mesóclise.

A norma da escrita formal e o português falado no Brasil resolvem a questão de jeitos diferentes, e a diferença tem registro nas gramáticas. As duas coisas aparecem aqui, separadas uma da outra.

As três posições, com o nome traduzido

A regra: o nome da posição vem de onde o pronome cai em relação ao verbo.

  • Próclise, que é o pronome antes do verbo: ninguém me avisou.
  • Ênclise, que é o pronome depois do verbo, com hífen: avisaram-me na quinta.
  • Mesóclise, que é o pronome dentro do verbo, com dois hifens: avisar-me-ão na quinta.

A mesóclise existe em dois tempos apenas: futuro do presente e futuro do pretérito. Nos outros tempos, a escolha fica entre próclise e ênclise.

Teste de bolso: olhe a terminação do verbo antes de escolher. Verbo terminado em rei, rá, remos, rão, ria ou riam abre a porta da mesóclise; qualquer outro tempo fecha a porta.

A próclise: a palavra que puxa o pronome para frente

A regra: havendo palavra atrativa antes do verbo, o pronome vem antes do verbo.

As atrativas se organizam em cinco famílias:

  • palavras de sentido negativo: não, nunca, jamais, ninguém, nada, nem
  • advérbios colados ao verbo, sem vírgula depois: sempre, ainda, já, talvez, aqui, agora
  • pronomes relativos: que, quem, o qual, onde, cujo
  • pronomes indefinidos e demonstrativos: alguém, tudo, todos, muitos, aquele
  • conjunções subordinativas: quando, se, porque, embora, conforme
Ninguém me avisou da mudança de sala.
A regra que me interessa está no capítulo três.
Quando se escreve depressa, a vírgula some.

Também pedem próclise as orações que exprimem desejo, as exclamativas e a construção com em mais gerúndio.

Em se tratando de norma, a fonte resolve a discussão.

A lista de atrativas está posta assim em Cunha e Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo, e na Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, com pequenas diferenças de arrumação entre as duas.

Teste de bolso: olhe a palavra imediatamente antes do verbo. Se ela nega, liga oração, pergunta ou é advérbio colado no verbo, o pronome vai para frente.

A ênclise: o padrão quando nada puxa

A regra: sem palavra atrativa antes, o pronome vai depois do verbo, ligado por hífen.

A ênclise é a colocação da norma escrita em três situações: verbo abrindo a oração, verbo no imperativo afirmativo e verbo no gerúndio sem a preposição em antes.

Trouxeram-me a prova de volta.
Devolva-me o caderno depois da aula.
Fechou a pasta, guardando-a na gaveta.

Depois de pausa marcada por vírgula, a ênclise também é a forma que a tradição pede.

Se puder, avise-me antes das sete.

A tradição normativa põe dois limites na ênclise. O pronome não vai depois do particípio, nem depois do verbo no futuro.

Tinha-lhe dito a mesma coisa.
Tinha dito-lhe a mesma coisa.

A segunda linha fica fora da norma escrita, e o mesmo vale para direi-lhe, que a tradição resolve por mesóclise.

Teste de bolso: leia o começo da oração em voz alta. Se o verbo é a primeira palavra e nada nega nem liga nada antes dele, a ênclise é a colocação que a norma escrita pede.

A mesóclise: só o futuro pede

A regra: com o verbo no futuro do presente ou no futuro do pretérito, e sem palavra atrativa antes, o pronome entra no meio do verbo.

Far-se-á nova revisão do texto.
Dar-lhe-ia a resposta ainda hoje.

Aparecendo a atrativa, a mesóclise sai de cena e a próclise entra no lugar dela.

Não se fará nova revisão.
Ninguém lhe daria a resposta.

A mesóclise é rara na conversa e continua viva em texto oficial e em documento jurídico. A construção é a única em que o pronome parte o verbo ao meio, e a prova cobra o reconhecimento dela.

Teste de bolso: procure o rá e o ria no fim do verbo. Sem atrativa antes, o pronome entra entre a raiz e a terminação, com dois hifens; com atrativa, ele volta para frente.

A locução verbal: mais de uma colocação aceita

A regra: quando há verbo auxiliar mais infinitivo ou gerúndio, a norma aceita mais de uma posição para o pronome.

Vou lhe dizer a regra inteira.
Vou dizer-lhe a regra inteira.
Vou-lhe dizer a regra inteira.

As três colocações aparecem registradas em Cunha e Cintra. Com palavra atrativa antes, o pronome vai antes do auxiliar ou depois do verbo principal.

Não lhe vou dizer a regra.
Não vou dizer-lhe a regra.

Teste de bolso: com locução verbal, escolha a colocação que soa natural na leitura em voz alta. As três estão dentro da norma, e a escolha é de estilo.

O que a prova cobra e o que o brasileiro fala

A regra da prova: no começo absoluto da oração, sem palavra atrativa, a norma escrita formal pede a ênclise.

Diga-me a hora da prova.
Me diz a hora da prova.

A segunda linha é o português falado no Brasil, e ele faz assim há muito tempo. A próclise em começo de frase é corrente na fala de todas as regiões.

A colocação brasileira tem registro. Cunha e Cintra descrevem a preferência do português do Brasil pela próclise, inclusive onde a tradição de Portugal usa a ênclise, e Bechara trata da mesma diferença entre as duas normas.

A lenda que circula é curta e não se sustenta: a de que nunca se começa frase com pronome oblíquo. A sentença não descreve o português do Brasil. Escritores brasileiros abrem frase com pronome desde o modernismo, e as gramáticas descrevem o uso em vez de ignorá-lo.

O que sobra na prática é uma divisão de registro. Texto que vai para uma banca ou para um documento segue a colocação da norma escrita; mensagem e conversa seguem a colocação brasileira. Os gramáticos divergem sobre o quanto a escrita formal deve acompanhar a fala, e a divergência é antiga.

Teste de bolso: pergunte quem vai ler antes de escolher. Documento e prova pedem a ênclise no começo da oração; a mensagem de hoje à tarde pede a próclise, e as duas têm registro.

As formas que o pronome assume depois do verbo

Colocar o pronome depois do verbo às vezes muda a forma dos dois, e as regras são mecânicas, ligadas ao som da terminação verbal.

Quando o verbo termina em erre, esse ou zê, essas letras caem e o pronome o, a, os, as ganha um ele na frente.

Vamos revisar o texto, e sim, vamos revisá-lo hoje.
Ela fez o pedido; ela fê-lo por escrito.
Nós pusemos a data; nós pusemo-la no rodapé.

Quando o verbo termina em som nasal, com til, com em ou com ão, o pronome ganha um ene na frente.

Os revisores leem as provas e devolvem-nas no mesmo dia.
Eles dão o parecer; eles dão-no na sexta.

Quando o verbo termina em vogal simples, nada muda, e o pronome entra direto com o hífen, como em entregue-o e devolva-a.

A regra explica formas que parecem estranhas em texto formal, como fá-lo, tê-lo e pô-la, e que são apenas a aplicação mecânica do princípio. Ela vale também dentro da mesóclise, o que produz construções como fá-lo-ei e dá-la-emos.

O teste de bolso: olhe a última letra do verbo antes de escrever o hífen. Erre, esse ou zê, corta e usa lo; som nasal, mantém e usa no; vogal simples, mantém e usa o.

Os pronomes que se fundem

Quando dois pronomes átonos aparecem juntos com o mesmo verbo, a norma escrita funde os dois numa forma só, e essas formas raramente aparecem na conversa cotidiana.

O pronome me somado a o, a, os ou as produz mo, ma, mos, mas. Com te, saem to, ta, tos, tas. Com lhe e com lhes, saem lho, lha, lhos, lhas, e a forma é a mesma para singular e plural do primeiro pronome.

Pediram o relatório e eu entreguei-lho na hora.
Você quer a explicação? Dou-ta agora.

O uso é raro no Brasil e frequente em texto literário e em documento antigo, e daí vem a presença dele em prova de interpretação: quem não reconhece a forma perde o sentido da frase inteira.

Existe uma alternativa que a própria norma aceita e que resolve a comunicação sem exigir a forma fundida: explicitar o complemento. Em vez de entreguei-lho, escreve-se entreguei o relatório a ele. A frase fica mais longa e mais clara, e nenhuma regra é quebrada.

O teste de bolso para leitura: encontrando uma forma iniciada por eme, tê ou lhe seguida de o, a, os ou as, desmonte em dois pronomes e devolva o complemento por extenso. A frase se explica sozinha.

Por que Brasil e Portugal colocam o pronome em lugares diferentes

A divergência entre as duas normas não é acaso nem descuido de um dos lados, e a explicação corrente entre estudiosos da língua é prosódica, ligada ao ritmo de cada variedade.

O português europeu reduz bastante as vogais átonas, e as sílabas sem acento chegam a desaparecer na pronúncia. Numa língua com esse ritmo, o pronome átono colocado antes do verbo tende a se apagar, e a posição depois do verbo o preserva.

O português brasileiro pronuncia as vogais átonas com bem mais nitidez, e o pronome antes do verbo se sustenta sem dificuldade. A posição anterior passou a ser a natural na fala de todas as regiões do país, inclusive no começo absoluto da frase.

A norma escrita formal brasileira foi codificada no século 19 tomando por modelo a escrita literária portuguesa, e herdou dali a preferência pela ênclise. É essa herança, e não uma descrição do português falado no Brasil, que sustenta a regra cobrada em prova.

As gramáticas de referência registram as duas colocações e a diferença entre as normas, o que devolve a discussão ao lugar certo: não é caso de certo contra errado, é caso de duas normas com histórias distintas, e a escolha depende do destino do texto.

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Na próxima mensagem que sair daqui, o pronome vai para frente do verbo sem pedir licença, e a língua falada no Brasil está inteira ali. No parágrafo que a banca vai ler, o hífen aparece depois do verbo, e as duas colocações seguem certas, cada uma na casa dela.

Perguntas frequentes

Quais são as três colocações pronominais?

Próclise, com o pronome antes do verbo; ênclise, com o pronome depois do verbo e ligado por hífen; e mesóclise, com o pronome dentro do verbo, entre a raiz e a terminação, também com hífen. A mesóclise só existe no futuro do presente e no futuro do pretérito.

Quando usar próclise?

Quando houver palavra atrativa antes do verbo: negativas como não e nunca, advérbios colados ao verbo, pronomes relativos, pronomes indefinidos e demonstrativos, e conjunções subordinativas. Orações que exprimem desejo, exclamativas e a construção com em mais gerúndio também pedem o pronome antes.

Pode começar frase com pronome oblíquo?

Na fala brasileira, sim, e a construção é corrente em todas as regiões, com registro nas gramáticas de referência. A norma escrita formal pede a ênclise no começo absoluto da oração, e é ela que a prova cobra. As duas colocações têm registro, e a escolha depende do destino do texto.

Quando o pronome vira "lo" ou "no"?

Depois do verbo, conforme a terminação. Verbo terminado em erre, esse ou zê perde essa letra e o pronome ganha um ele, como em revisá-lo e fê-lo. Verbo terminado em som nasal mantém a terminação e o pronome ganha um ene, como em devolvem-nas e dão-no.

O que são formas como "mo", "to" e "lho"?

São fusões de dois pronomes átonos que aparecem juntos com o mesmo verbo: me mais o produz mo; te mais a produz ta; lhe mais o produz lho. São raras no Brasil e frequentes em texto literário e em documento antigo, e reconhecê-las é o que permite entender a frase.

Quando usar mesóclise?

Com o verbo no futuro do presente ou no futuro do pretérito e sem palavra atrativa antes, como em far-se-á e dar-lhe-ia. Aparecendo a atrativa, a mesóclise sai e a próclise entra: não se fará, ninguém lhe daria.

Por que Portugal e Brasil colocam o pronome de forma diferente?

Por uma razão ligada ao ritmo de cada variedade. O português europeu reduz muito as vogais átonas, e a posição depois do verbo preserva o pronome; o português brasileiro pronuncia as átonas com nitidez, e a posição anterior se sustenta. A norma escrita brasileira foi codificada tomando por modelo a escrita literária portuguesa.

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