A regra · Regra

Colocação pronominal: as três posições e quem manda em cada uma

Pronome · Leitura de 5 minutos

Um caderno fechado com um elástico atravessado, sozinho numa superfície de papel claro e frio, sob a luz calma de manhã cedo que entra pela esquerda, com sombra macia caindo pra direita e o vermelho de revisão como única cor viva

O pronome oblíquo átono tem três lugares possíveis perto do verbo. O grupo é pequeno e conhecido: me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes.

A escolha do lugar não depende do gosto de quem escreve. Ela depende de uma palavra que aparece antes do verbo e do tempo em que o verbo está.

Antes do verbo é próclise. Depois do verbo, preso por hífen, é ênclise. Dentro do verbo, também com hífen, é mesóclise.

A norma da escrita formal e o português falado no Brasil resolvem a questão de jeitos diferentes, e a diferença tem registro nas gramáticas. As duas coisas aparecem aqui, separadas uma da outra.

As três posições, com o nome traduzido

A regra: o nome da posição vem de onde o pronome cai em relação ao verbo.

  • Próclise, que é o pronome antes do verbo: ninguém me avisou.
  • Ênclise, que é o pronome depois do verbo, com hífen: avisaram-me na quinta.
  • Mesóclise, que é o pronome dentro do verbo, com dois hifens: avisar-me-ão na quinta.

A mesóclise existe em dois tempos apenas: futuro do presente e futuro do pretérito. Nos outros tempos, a escolha fica entre próclise e ênclise.

Teste de bolso: olhe a terminação do verbo antes de escolher. Verbo terminado em rei, rá, remos, rão, ria ou riam abre a porta da mesóclise; qualquer outro tempo fecha a porta.

A próclise: a palavra que puxa o pronome para frente

A regra: havendo palavra atrativa antes do verbo, o pronome vem antes do verbo.

As atrativas se organizam em cinco famílias:

  • palavras de sentido negativo: não, nunca, jamais, ninguém, nada, nem
  • advérbios colados ao verbo, sem vírgula depois: sempre, ainda, já, talvez, aqui, agora
  • pronomes relativos: que, quem, o qual, onde, cujo
  • pronomes indefinidos e demonstrativos: alguém, tudo, todos, muitos, aquele
  • conjunções subordinativas: quando, se, porque, embora, conforme
Ninguém me avisou da mudança de sala.
A regra que me interessa está no capítulo três.
Quando se escreve depressa, a vírgula some.

Também pedem próclise as orações que exprimem desejo, as exclamativas e a construção com em mais gerúndio.

Em se tratando de norma, a fonte resolve a discussão.

A lista de atrativas está posta assim em Cunha e Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo, e na Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, com pequenas diferenças de arrumação entre as duas.

Teste de bolso: olhe a palavra imediatamente antes do verbo. Se ela nega, liga oração, pergunta ou é advérbio colado no verbo, o pronome vai para frente.

A ênclise: o padrão quando nada puxa

A regra: sem palavra atrativa antes, o pronome vai depois do verbo, ligado por hífen.

A ênclise é a colocação da norma escrita em três situações: verbo abrindo a oração, verbo no imperativo afirmativo e verbo no gerúndio sem a preposição em antes.

Trouxeram-me a prova de volta.
Devolva-me o caderno depois da aula.
Fechou a pasta, guardando-a na gaveta.

Depois de pausa marcada por vírgula, a ênclise também é a forma que a tradição pede.

Se puder, avise-me antes das sete.

A tradição normativa põe dois limites na ênclise. O pronome não vai depois do particípio, nem depois do verbo no futuro.

Tinha-lhe dito a mesma coisa.
Tinha dito-lhe a mesma coisa.

A segunda linha fica fora da norma escrita, e o mesmo vale para direi-lhe, que a tradição resolve por mesóclise.

Teste de bolso: leia o começo da oração em voz alta. Se o verbo é a primeira palavra e nada nega nem liga nada antes dele, a ênclise é a colocação que a norma escrita pede.

A mesóclise: só o futuro pede

A regra: com o verbo no futuro do presente ou no futuro do pretérito, e sem palavra atrativa antes, o pronome entra no meio do verbo.

Far-se-á nova revisão do texto.
Dar-lhe-ia a resposta ainda hoje.

Aparecendo a atrativa, a mesóclise sai de cena e a próclise entra no lugar dela.

Não se fará nova revisão.
Ninguém lhe daria a resposta.

A mesóclise é rara na conversa e continua viva em texto oficial e em documento jurídico. A construção é a única em que o pronome parte o verbo ao meio, e a prova cobra o reconhecimento dela.

Teste de bolso: procure o rá e o ria no fim do verbo. Sem atrativa antes, o pronome entra entre a raiz e a terminação, com dois hifens; com atrativa, ele volta para frente.

A locução verbal: mais de uma colocação aceita

A regra: quando há verbo auxiliar mais infinitivo ou gerúndio, a norma aceita mais de uma posição para o pronome.

Vou lhe dizer a regra inteira.
Vou dizer-lhe a regra inteira.
Vou-lhe dizer a regra inteira.

As três colocações aparecem registradas em Cunha e Cintra. Com palavra atrativa antes, o pronome vai antes do auxiliar ou depois do verbo principal.

Não lhe vou dizer a regra.
Não vou dizer-lhe a regra.

Teste de bolso: com locução verbal, escolha a colocação que soa natural na leitura em voz alta. As três estão dentro da norma, e a escolha é de estilo.

O que a prova cobra e o que o brasileiro fala

A regra da prova: no começo absoluto da oração, sem palavra atrativa, a norma escrita formal pede a ênclise.

Diga-me a hora da prova.
Me diz a hora da prova.

A segunda linha é o português falado no Brasil, e ele faz assim há muito tempo. A próclise em começo de frase é corrente na fala de todas as regiões.

A colocação brasileira tem registro. Cunha e Cintra descrevem a preferência do português do Brasil pela próclise, inclusive onde a tradição de Portugal usa a ênclise, e Bechara trata da mesma diferença entre as duas normas.

A lenda que circula é curta e não se sustenta: a de que nunca se começa frase com pronome oblíquo. A sentença não descreve o português do Brasil. Escritores brasileiros abrem frase com pronome desde o modernismo, e as gramáticas descrevem o uso em vez de ignorá-lo.

O que sobra na prática é uma divisão de registro. Texto que vai para uma banca ou para um documento segue a colocação da norma escrita; mensagem e conversa seguem a colocação brasileira. Os gramáticos divergem sobre o quanto a escrita formal deve acompanhar a fala, e a divergência é antiga.

Teste de bolso: pergunte quem vai ler antes de escolher. Documento e prova pedem a ênclise no começo da oração; a mensagem de hoje à tarde pede a próclise, e as duas têm registro.

A newsletter Português do Dia está em preparação

Deixe seu email e receba o aviso quando o primeiro envio sair.

Entre antes do primeiro envio.

Você só recebe o aviso de lançamento. Cancele quando quiser.

Na próxima mensagem que sair daqui, o pronome vai para frente do verbo sem pedir licença, e a língua falada no Brasil está inteira ali. No parágrafo que a banca vai ler, o hífen aparece depois do verbo, e as duas colocações seguem certas, cada uma na casa dela.

Português do Dia está chegando

Deixe seu email e receba o aviso quando o primeiro envio sair.

Entre antes do primeiro envio.

Você só recebe o aviso de lançamento. Cancele quando quiser.