A regra · Guia
Erros de português: as três famílias que a lista de sempre mistura
Por Redação Português do Dia · Grafia · Leitura de 11 minutos

Neste artigo
- Família 1: o que a norma condena mesmo
- Família 2: a lenda que a norma nunca disse
- Família 3: as duas formas que a norma aceita
- Onde a norma e a fala discordam
- O teste que separa as três famílias
- A quarta família: o erro que troca o sentido
- Como uma forma entra na norma
- O que o corretor automático não pega
- Perguntas frequentes
Toda lista de erros de português junta três coisas que não têm o mesmo peso.
Uma parte é norma mesmo: uma forma está registrada e a outra não está em lugar nenhum. Outra parte é lenda de professor, repetida tanto que virou regra sem nunca ter sido. E uma terceira parte é escolha livre, com as duas formas aceitas pela mesma tradição.
Quem trata as três do mesmo jeito troca forma correta por forma correta, e às vezes por forma pior. Separar as três é o trabalho, e é o que vem abaixo.
Família 1: o que a norma condena mesmo
A primeira família é a mais curta e a mais fácil de conferir, porque tem registro oficial atrás.
Na grafia, uma forma consta no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, e a outra não consta em obra nenhuma. Três que aparecem trocadas com frequência:
- meteorologia, com te e o no meio, e nunca metereologia.
- privilégio, com i depois do p, e nunca previlégio.
- exceção, com xc no começo e ç no meio, e nunca excessão.
Teste de bolso: grafia se confere, não se discute. O Vocabulário Ortográfico é pesquisável no site da Academia Brasileira de Letras e responde em segundos.
Na sintaxe, duas construções que a tradição normativa registra de um jeito só.
Separei o material para eu escrever amanhã.
Separei o material para mim escrever amanhã.
O pronome que vem antes de um infinitivo e pratica a ação dele é eu, e não mim. Teste de bolso: mim não pratica ação. Quando o verbo seguinte é do próprio pronome, o pronome é eu.
O acordo ficou entre mim e você.
O acordo ficou entre eu e você.
Depois de preposição entra a forma oblíqua: mim, ti, ele. O critério está na Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, e na Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara.
Família 2: a lenda que a norma nunca disse
Cinco prescrições que circulam como regra e não têm registro normativo do tamanho que a fama sugere.
Nunca comece frase com pronome oblíquo. A próclise, que é o pronome antes do verbo, abre frase no Brasil o tempo todo, e a Nova Gramática do Português Contemporâneo registra a preferência brasileira pela posição anterior ao verbo. A prescrição contrária vem da colocação portuguesa, que puxa para a ênclise. Em texto de registro muito formal a ênclise inicial segue sendo a resposta esperada, e a diferença entre as duas é de registro e de variedade.
Crase antes de palavra masculina não existe. Existe, e o caso é clássico: a expressão à moda de fica subentendida e o acento permanece.
O time joga à Garrincha, com o drible antes do passe.
O texto saiu à Nelson Rodrigues, com frase curta e adjetivo forte.
A palavra que aparece depois é masculina, e a palavra feminina que puxa o acento é moda, que ficou de fora da frase. Cunha e Cintra registram o caso. Teste de bolso: encaixe à moda de antes da palavra. Se a frase continua de pé, o acento fica.
Onde só serve para lugar físico. A recomendação de reservar onde para lugar é conselho de precisão, registrado em manual de redação, e conselho de precisão é diferente de regra quebrada. Nenhuma regra de concordância, de regência ou de pontuação foi violada no emprego mais largo.
A reunião em que a decisão saiu foi curta.
A reunião onde a decisão saiu foi curta.
Teste de bolso: quando cabe em que, escreva em que e a discussão termina antes de começar.
A nível de e enquanto que são erro de gramática. São vícios de estilo, e a diferença importa. A troca melhora a frase de qualquer jeito: em vez de a nível de gestão, escreva na gestão ou em matéria de gestão; em vez de enquanto que, escreva enquanto ou ao passo que. Teste de bolso: leia a frase sem a expressão. Quando o sentido continua inteiro, ela era enfeite.
Família 3: as duas formas que a norma aceita
Terceira família, a que mais gera correção desnecessária: as duas formas estão registradas e a escolha é de quem escreve.
Na grafia, loiro e louro estão os dois no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, e catorze e quatorze também.
Na concordância com o pronome quem, a tradição normativa registra as duas saídas.
Sou eu quem paga a conta.
Sou eu quem pago a conta.
A primeira segue a regra geral, com o verbo na terceira pessoa. A segunda concorda com o sujeito da oração anterior, e a tradição normativa aceita a atração.
Na pontuação, o adjunto adverbial curto no começo da frase leva vírgula opcional.
Ontem cheguei tarde.
Ontem, cheguei tarde.
Teste de bolso: quando as duas formas estão registradas, escolha uma e mantenha a escolha do começo ao fim do texto. Coerência interna é o critério que sobra.
Onde a norma e a fala discordam
Existe uma quarta situação, e ela não é família de erro, e sim de lugar.
Vamos na padaria depois.
Vamos à padaria depois.
O verbo ir, na norma escrita registrada em Cunha e Cintra, pede a ou para quando indica destino. A construção com em é corrente na fala brasileira e não sobe para a redação de prova.
O texto aqui não pede que ninguém fale diferente. Ele separa o que a prova cobra do que o brasileiro fala, e devolve as duas coisas com nome próprio.
O teste que separa as três famílias
Antes de aceitar uma correção alheia, três perguntas em ordem.
- A forma condenada aparece em algum registro oficial ou em alguma gramática de referência? Quando ela não aparece em lugar nenhum, é família 1, e a troca vale.
- Quem condenou nomeou a regra quebrada? Concordância, regência, pontuação, grafia. Quando ninguém nomeia a regra, o caso é lenda ou é estilo.
- As duas formas estão registradas? Então a escolha é sua, e a única cobrança que resta é manter a mesma escolha no texto todo.
A quarta família: o erro que troca o sentido
Existe um grupo que nenhuma das três famílias cobre, e ele é o mais caro em texto profissional: o par de palavras parecidas que significa coisas diferentes. Aqui não há debate normativo nem estilo, há troca de informação.
Ao encontro de indica concordância; de encontro a indica choque. A frase inverte de sentido conforme a preposição escolhida.
A proposta vem ao encontro do que pedimos.
A proposta vem de encontro ao que pedimos.
Em vez de indica substituição; ao invés de indica oposição, no sentido de ao contrário de. A tradição registra o segundo como restrito à ideia de contrário, e o primeiro serve para os dois casos, o que faz dele a escolha segura.
Senão, junto, equivale a caso contrário ou a a não ser; se não, separado, introduz condição negativa.
Avise antes, senão perderemos o prazo.
Se não avisar, perderemos o prazo.
Afim indica afinidade; a fim de indica finalidade. Acerca de significa sobre; há cerca de indica tempo decorrido; cerca de indica aproximação.
Estudamos temas afins.
Cheguei cedo a fim de terminar o relatório.
O teste de bolso comum a todos: substitua pela expressão equivalente inteira. Cabendo caso contrário, é senão junto; cabendo para, é a fim de; cabendo faz, é há.
Como uma forma entra na norma
Entender o caminho que uma construção percorre até virar norma evita tanto o purismo inútil quanto o vale-tudo, e o percurso tem quatro estágios reconhecíveis.
O primeiro é o uso restrito, em que a construção aparece na fala de um grupo ou de uma região. Nesse estágio ela é registrada por descrição linguística e não tem lugar em texto formal.
O segundo é a difusão. A construção se espalha por variedades diferentes, inclusive na fala de pessoas com escolarização alta, e passa a aparecer em texto escrito informal.
O terceiro é o registro lexicográfico. Dicionários de uso passam a trazê-la, às vezes com marca indicando o nível de formalidade, o que já muda a conversa: a forma deixou de ser invisível para a referência.
O quarto é o registro gramatical. Uma gramática de referência descreve a construção, indicando se ela é aceita na escrita cuidada, se convive com outra ou se ainda é restrita à fala. É nesse ponto que a prova costuma passar a aceitá-la.
O percurso leva décadas e não é automático: muitas construções param no segundo estágio e ficam ali indefinidamente. A leitura prática é a de sempre: antes de defender ou condenar uma forma, verificar em que estágio ela está, e quem a registra.
O que o corretor automático não pega
Ferramentas de revisão evoluíram muito na ortografia e continuam fracas em quatro frentes, justamente as que mais aparecem em texto de trabalho.
A primeira é o par de palavras parecidas da seção anterior. Como as duas formas existem e estão grafadas corretamente, o corretor não sinaliza nada, e a frase sai com o sentido invertido.
A segunda é a concordância a distância. Sujeito comprido, com termos intercalados entre ele e o verbo, engana a maior parte das ferramentas, que se apoiam na palavra mais próxima.
A terceira é a regência. A preposição correta depende do sentido pretendido, e nenhuma ferramenta infere intenção com segurança. Sugestões automáticas de preposição merecem sempre uma segunda olhada.
A quarta é a repetição. Palavra repetida três vezes no mesmo parágrafo não é erro de gramática e derruba a qualidade do texto, e só a leitura humana pega.
A rotina que resolve as quatro leva poucos minutos: leia o texto em voz alta uma vez. A repetição incomoda o ouvido, a concordância errada trava a frase e a preposição fora do lugar soa estranha antes de qualquer análise.
A newsletter Português do Dia está em preparação
Deixe seu email e receba o aviso quando o primeiro envio sair.
Entre antes do primeiro envio.
Você só recebe o aviso de lançamento. Cancele quando quiser.
A pergunta que resolve quase tudo cabe em cinco palavras: onde está escrito que não? Na próxima vez que alguém marcar uma frase sua de vermelho, faça a pergunta antes de trocar a palavra.
Perguntas frequentes
É "para mim fazer" ou "para eu fazer"?
Para eu fazer. O pronome que vem antes de um infinitivo e pratica a ação dele é eu, e não mim. A regra prática é curta: mim não pratica ação. Depois de preposição sem verbo em seguida, entra a forma oblíqua, como em o acordo ficou entre mim e você.
Pode começar frase com pronome oblíquo?
Pode. A posição do pronome antes do verbo é a preferência brasileira registrada na Nova Gramática do Português Contemporâneo. A prescrição contrária vem da colocação portuguesa, e em texto de registro muito formal a outra posição segue sendo a resposta esperada.
Existe crase antes de palavra masculina?
Existe, no caso da expressão subentendida. Em construções como o time joga à Garrincha, a palavra feminina que puxa o acento é moda, que ficou de fora da frase. O teste é encaixar "à moda de" antes da palavra: se a frase continua de pé, o acento fica.
"A nível de" é erro de gramática?
É vício de estilo, e a diferença importa. Nenhuma regra de concordância, regência ou pontuação é quebrada. A troca melhora a frase de qualquer jeito: em vez de a nível de gestão, escreva na gestão ou em matéria de gestão.
Qual a diferença entre "ao encontro de" e "de encontro a"?
Ao encontro de indica concordância; de encontro a indica choque. A frase inverte de sentido conforme a escolha, e o corretor automático não sinaliza nada, porque as duas formas existem e estão grafadas corretamente.
É "loiro" ou "louro"?
As duas formas estão registradas no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, assim como catorze e quatorze. Quando as duas constam, a escolha é de quem escreve, e a única cobrança que resta é manter a mesma opção do começo ao fim do texto.
O corretor automático pega troca de palavra parecida?
Não pega. Como as duas formas existem e estão grafadas corretamente, nenhum sublinhado aparece, e a frase sai com o sentido invertido. É o caso de ao encontro de e de encontro a, de senão e se não, de afim e a fim de.
Como saber se uma correção alheia procede?
Três perguntas em ordem: a forma condenada aparece em algum registro oficial ou gramática de referência? Quem condenou nomeou a regra quebrada, seja concordância, regência, pontuação ou grafia? As duas formas estão registradas? A pergunta que resolve quase tudo tem cinco palavras: onde está escrito que não?
Veja também
Significado de palavras: onde o sentido está registrado e como ler o verbete
Celso Cunha: como consultar a Nova Gramática do Português Contemporâneo
Português do Dia está chegando
Deixe seu email e receba o aviso quando o primeiro envio sair.
Entre antes do primeiro envio.
Você só recebe o aviso de lançamento. Cancele quando quiser.