A regra · Guia

Erros de português: as três famílias que a lista de sempre mistura

Grafia · Leitura de 5 minutos

Um grampeador pequeno de metal sozinho numa superfície de papel claro e frio, sob a luz calma de manhã cedo que entra pela esquerda, com sombra macia caindo pra direita e o vermelho de revisão como única cor viva

Toda lista de erros de português junta três coisas que não têm o mesmo peso.

Uma parte é norma mesmo: uma forma está registrada e a outra não está em lugar nenhum. Outra parte é lenda de professor, repetida tanto que virou regra sem nunca ter sido. E uma terceira parte é escolha livre, com as duas formas aceitas pela mesma tradição.

Quem trata as três do mesmo jeito troca forma correta por forma correta, e às vezes por forma pior. Separar as três é o trabalho, e é o que vem abaixo.

Família 1: o que a norma condena mesmo

A primeira família é a mais curta e a mais fácil de conferir, porque tem registro oficial atrás.

Na grafia, uma forma consta no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, e a outra não consta em obra nenhuma. Três que aparecem trocadas com frequência:

  • meteorologia, com te e o no meio, e nunca metereologia.
  • privilégio, com i depois do p, e nunca previlégio.
  • exceção, com xc no começo e ç no meio, e nunca excessão.

Teste de bolso: grafia se confere, não se discute. O Vocabulário Ortográfico é pesquisável no site da Academia Brasileira de Letras e responde em segundos.

Na sintaxe, duas construções que a tradição normativa registra de um jeito só.

Separei o material para eu escrever amanhã.
Separei o material para mim escrever amanhã.

O pronome que vem antes de um infinitivo e pratica a ação dele é eu, e não mim. Teste de bolso: mim não pratica ação. Quando o verbo seguinte é do próprio pronome, o pronome é eu.

O acordo ficou entre mim e você.
O acordo ficou entre eu e você.

Depois de preposição entra a forma oblíqua: mim, ti, ele. O critério está na Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, e na Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara.

Família 2: a lenda que a norma nunca disse

Cinco prescrições que circulam como regra e não têm registro normativo do tamanho que a fama sugere.

Nunca comece frase com pronome oblíquo. A próclise, que é o pronome antes do verbo, abre frase no Brasil o tempo todo, e a Nova Gramática do Português Contemporâneo registra a preferência brasileira pela posição anterior ao verbo. A prescrição contrária vem da colocação portuguesa, que puxa para a ênclise. Em texto de registro muito formal a ênclise inicial segue sendo a resposta esperada, e a diferença entre as duas é de registro e de variedade.

Crase antes de palavra masculina não existe. Existe, e o caso é clássico: a expressão à moda de fica subentendida e o acento permanece.

O time joga à Garrincha, com o drible antes do passe.
O texto saiu à Nelson Rodrigues, com frase curta e adjetivo forte.

A palavra que aparece depois é masculina, e a palavra feminina que puxa o acento é moda, que ficou de fora da frase. Cunha e Cintra registram o caso. Teste de bolso: encaixe à moda de antes da palavra. Se a frase continua de pé, o acento fica.

Onde só serve para lugar físico. A recomendação de reservar onde para lugar é conselho de precisão, registrado em manual de redação, e conselho de precisão é diferente de regra quebrada. Nenhuma regra de concordância, de regência ou de pontuação foi violada no emprego mais largo.

A reunião em que a decisão saiu foi curta.
A reunião onde a decisão saiu foi curta.

Teste de bolso: quando cabe em que, escreva em que e a discussão termina antes de começar.

A nível de e enquanto que são erro de gramática. São vícios de estilo, e a diferença importa. A troca melhora a frase de qualquer jeito: em vez de a nível de gestão, escreva na gestão ou em matéria de gestão; em vez de enquanto que, escreva enquanto ou ao passo que. Teste de bolso: leia a frase sem a expressão. Quando o sentido continua inteiro, ela era enfeite.

Família 3: as duas formas que a norma aceita

Terceira família, a que mais gera correção desnecessária: as duas formas estão registradas e a escolha é de quem escreve.

Na grafia, loiro e louro estão os dois no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, e catorze e quatorze também.

Na concordância com o pronome quem, a tradição normativa registra as duas saídas.

Sou eu quem paga a conta.
Sou eu quem pago a conta.

A primeira segue a regra geral, com o verbo na terceira pessoa. A segunda concorda com o sujeito da oração anterior, e a tradição normativa aceita a atração.

Na pontuação, o adjunto adverbial curto no começo da frase leva vírgula opcional.

Ontem cheguei tarde.
Ontem, cheguei tarde.

Teste de bolso: quando as duas formas estão registradas, escolha uma e mantenha a escolha do começo ao fim do texto. Coerência interna é o critério que sobra.

Onde a norma e a fala discordam

Existe uma quarta situação, e ela não é família de erro, e sim de lugar.

Vamos na padaria depois.
Vamos à padaria depois.

O verbo ir, na norma escrita registrada em Cunha e Cintra, pede a ou para quando indica destino. A construção com em é corrente na fala brasileira e não sobe para a redação de prova.

O texto aqui não pede que ninguém fale diferente. Ele separa o que a prova cobra do que o brasileiro fala, e devolve as duas coisas com nome próprio.

O teste que separa as três famílias

Antes de aceitar uma correção alheia, três perguntas em ordem.

  • A forma condenada aparece em algum registro oficial ou em alguma gramática de referência? Quando ela não aparece em lugar nenhum, é família 1, e a troca vale.
  • Quem condenou nomeou a regra quebrada? Concordância, regência, pontuação, grafia. Quando ninguém nomeia a regra, o caso é lenda ou é estilo.
  • As duas formas estão registradas? Então a escolha é sua, e a única cobrança que resta é manter a mesma escolha no texto todo.

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