A regra · Guia
Ortografia: o que o Acordo de 1990 mexeu, o que ele não mexeu e onde conferir
Por Redação Português do Dia · Grafia · Leitura de 11 minutos

Neste artigo
- O trema saiu, com uma exceção que continua de pé
- O acento diferencial: o que caiu e o que ficou
- O hífen: a conta é das duas letras que se encontram
- O que o Acordo não mexeu
- Onde a grafia oficial mora e como consultar
- Os países que assinaram, e a grafia que continua diferente
- Cinco pares que respondem por metade das dúvidas
- Linha do tempo da ortografia
- Perguntas frequentes
Ortografia é a parte da escrita que trata da grafia das palavras: quais letras entram, onde vai acento e onde vai hífen.
Quase toda dúvida de grafia no Brasil de hoje cai numa de três frentes, e as três foram mexidas pelo Acordo Ortográfico de 1990, em vigor obrigatório no país desde 2016.
As frentes são o trema, o acento diferencial e o hífen. Fora delas, o Acordo mudou muito pouco, e a confusão entre o que mudou e o que ficou é a origem da maioria das dúvidas.
Cada seção abaixo traz a regra primeiro, o teste que você aplica na próxima palavra e a fonte que registra a grafia.
O trema saiu, com uma exceção que continua de pé
A regra: o trema deixou de existir nas palavras portuguesas. Escreve-se linguiça, sequência, tranquilo, cinquenta, frequente, aguentar.
A exceção está escrita no próprio Acordo Ortográfico de 1990: o trema permanece em nome próprio estrangeiro e nos derivados dele.
Müller, mülleriano, Bündchen, Hübner.
A queda do trema mexeu na escrita e não mexeu na pronúncia. O "u" de linguiça continua sendo pronunciado como sempre foi, e o sinal que sumiu apenas deixou de avisar.
O teste de bolso: se a palavra é portuguesa, escreva sem trema e siga em frente. Se ela veio de um sobrenome estrangeiro, o trema fica.
O acento diferencial: o que caiu e o que ficou
A regra: o Acordo Ortográfico de 1990 derrubou quase todos os acentos que serviam só para separar palavras iguais.
Caíram os acentos de para, pelo, pera e polo. Hoje o verbo e a preposição se escrevem do mesmo jeito, e o contexto resolve a leitura.
A moto para na esquina.
Fui até a esquina para comprar pão.
Ficaram dois casos, e são obrigatórios. O primeiro é pôde, do pretérito, contra pode, do presente. O segundo é pôr, o verbo, contra por, a preposição.
Ela não pôde vir ontem.
Ela não pode vir hoje.
Um caso é facultativo: fôrma e forma convivem, e o acento entra quando quem escreve quer marcar o objeto que molda o bolo.
O mesmo Acordo mexeu em outra frente de acentuação, que costuma ser confundida com a diferencial. Paroxítonas perderam o acento nos ditongos abertos e nos encontros de vogais iguais: ideia, assembleia, heroico, jiboia, voo, enjoo, leem, veem.
Em oxítonas o acento continua: herói, papéis, anéis, troféu. A mudança valeu para a palavra com força na penúltima sílaba, e a peça sobre acentuação de paroxítonas trata da conta inteira.
O teste de bolso do diferencial: troque o verbo por "conseguiu" no passado. Cabendo a troca, o acento de pôde fica.
O hífen: a conta é das duas letras que se encontram
A regra central: com prefixo, o hífen entra quando o prefixo termina com a mesma letra com que a palavra seguinte começa, e quando a palavra seguinte começa por "h".
micro-ondas, anti-inflamatório, inter-regional, super-homem.
Sendo as letras diferentes, o prefixo cola na palavra. Diante de "r" ou "s" iniciais, a consoante dobra para manter o som.
autoescola, autorretrato, antessala, ultrassom, contrarregra.
Três grupos continuam com hífen fixo, e o Acordo Ortográfico de 1990 os mantém: os prefixos "sub" e "sob" diante de "r", como em sub-região; "circum" e "pan" diante de vogal, "h", "m" e "n", como em pan-americano; e as formas bem, além, recém, sem, ex, vice e pós, como em recém-nascido e vice-presidente.
As locuções perderam o hífen que tinham: fim de semana, dia a dia, cão de guarda. Um punhado de expressões consagradas ficou de fora da mudança, entre elas cor-de-rosa, mais-que-perfeito e à queima-roupa.
Nomes de planta e de bicho mantêm o hífen: erva-doce, bem-te-vi, joão-de-barro. E alguns compostos antigos viraram palavra única, com paraquedas e paraquedista no lugar das formas com hífen.
O teste de bolso: olhe a última letra do prefixo e a primeira da palavra seguinte. Iguais, hífen; diferentes, junta, dobrando "r" ou "s" antes de vogal.
O que o Acordo não mexeu
O Acordo Ortográfico de 1990 mexeu na grafia e parou ali. A pronúncia continua a mesma, e nenhuma palavra mudou de sentido por causa dele.
A escolha entre "s" e "z", entre "x" e "ch", entre "g" e "j", entre "ss", "ç" e "sc" também ficou como estava. A grafia dessas letras vem da história de cada palavra e não sai de regra produtiva nenhuma.
análise, azedo, enxame, enchente, viagem, viajem, ascensão.
Crase, concordância, regência e pontuação estão fora do alcance do Acordo. Um deslize em qualquer uma delas é falha de gramática, e não de ortografia, ainda que o nome popular junte tudo no mesmo saco.
O teste de bolso: pergunte se a dúvida é sobre a letra ou sobre a frase. Sendo a letra, a resposta está no vocabulário oficial; sendo a frase, a resposta está na gramática.
Onde a grafia oficial mora e como consultar
A regra: no Brasil, a grafia oficial de uma palavra é a que está no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, o VOLP, publicado pela Academia Brasileira de Letras e com consulta aberta no site da entidade.
O VOLP registra a grafia, a classe gramatical e a flexão. Ele não traz definição, e a ausência de definição é o que separa a consulta de escrita da consulta de sentido.
Os dicionários de uso, como Michaelis, Houaiss e Aurélio, trazem grafia e sentido juntos, com as acepções numeradas. Eles são o caminho quando a pergunta é o que a palavra quer dizer.
O teste de bolso: dúvida de como se escreve vai ao VOLP. Dúvida de o que significa vai ao dicionário. A confusão entre as duas consultas custa mais tempo do que a dúvida original.
Os países que assinaram, e a grafia que continua diferente
O Acordo Ortográfico de 1990 foi assinado pelos países de língua oficial portuguesa, com adesão posterior de Timor-Leste, e a expectativa comum é de que ele tenha unificado a escrita. Ele não unificou.
O que o Acordo fez foi aproximar as duas grafias em uso, a brasileira e a lusitana, reduzindo divergências e admitindo dupla grafia onde a pronúncia difere. Palavras em que uma consoante é pronunciada de um lado do Atlântico e muda do outro continuam podendo ser escritas de duas maneiras, cada uma válida no país correspondente.
O caso mais citado envolve consoantes que os brasileiros não pronunciam e os portugueses pronunciam em parte das palavras. Onde a letra é muda dos dois lados, ela caiu para todos. Onde ela é pronunciada em algum dos países, ela permaneceu para quem a pronuncia, e a grafia é dupla no espaço da língua.
Existem ainda diferenças que o Acordo não tocou por não serem ortográficas: vocabulário, construção de frase e uso de pronomes seguem distintos entre as variedades, e nenhuma reforma de escrita interfere neles.
A leitura prática para quem escreve no Brasil é simples. A grafia válida no país é a registrada no vocabulário oficial brasileiro, e a existência de outra forma correta em Portugal não torna a brasileira errada nem o contrário. Texto destinado a leitor de outro país da língua pede revisão local, do mesmo modo que um texto em inglês pede revisão conforme o mercado.
Cinco pares que respondem por metade das dúvidas
Fora das três frentes do Acordo, um punhado pequeno de pares concentra a maioria dos erros de grafia em texto profissional. Todos se resolvem por substituição.
O primeiro é mal e mau. Mau é adjetivo e se opõe a bom; mal é advérbio e se opõe a bem. Troque por bem ou por bom, e a forma certa aparece sozinha.
O segundo é há e a. O verbo haver indica tempo passado e cabe trocar por faz; a preposição indica tempo futuro ou distância. Trabalho aqui há dez anos, e as férias começam daqui a dez dias.
O terceiro é trás e traz. Trás é advérbio e aparece em para trás e por trás; traz é o verbo trazer na terceira pessoa. Troque por levar, e o verbo se identifica.
O quarto é a família de por que, porque, por quê e porquê. Separado é pergunta ou vale por pelo qual; junto é resposta; separado e com acento fecha frase; junto e com acento é substantivo, aceitando artigo na frente.
O quinto é sessão, seção e cessão. Sessão é período de tempo, como a de cinema; seção é divisão ou repartição, como a de um jornal; cessão vem de ceder e nomeia a transferência de algo.
Linha do tempo da ortografia
- 1911Portugal adota a primeira reforma ortográfica sistemática da língua, sem participação brasileira, e as duas escritas passam a divergir de forma organizada.
- 1931Brasil e Portugal firmam o primeiro acordo ortográfico entre os dois países, que reduz parte das divergências sem eliminá-las.
- 1943O Brasil aprova o formulário ortográfico que organiza a escrita no país e serve de base para o vocabulário oficial.
- 1971Uma lei brasileira simplifica a acentuação, eliminando acentos diferenciais e o acento grave dos advérbios formados de adjetivos acentuados.
- 1990É assinado o Acordo Ortográfico entre os países de língua oficial portuguesa, com adesão posterior de Timor-Leste.
- 2009 a 2016O Acordo entra em vigor no Brasil com período de transição, e a partir de 2016 a grafia acordada passa a ser a única válida em documento oficial brasileiro.
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Na próxima palavra que travar a sua frase, o caminho tem duas paradas e nenhuma delas é a memória. Aplique a conta das duas letras se houver prefixo, e abra o VOLP se a letra do meio for a dúvida.
Perguntas frequentes
O trema acabou mesmo?
Nas palavras portuguesas, sim: escreve-se linguiça, sequência, tranquilo, cinquenta e aguentar. O próprio Acordo Ortográfico de 1990 mantém o trema em nome próprio estrangeiro e nos derivados dele, como em Müller e mülleriano. A pronúncia não mudou; apenas o sinal que a avisava desapareceu.
Quando usar hífen com prefixo?
Quando o prefixo termina com a mesma letra com que a palavra seguinte começa, e quando a palavra seguinte começa por agá. Sendo as letras diferentes, o prefixo cola, dobrando erre ou esse antes de vogal. Alguns grupos mantêm hífen fixo, como sub diante de erre e as formas bem, recém, ex, vice e pós.
Quais acentos diferenciais continuam?
Dois obrigatórios: pôde, do pretérito, contra pode, do presente; e pôr, o verbo, contra por, a preposição. Um é facultativo, o de fôrma contra forma. Caíram os de para, pelo, pera e polo, e o contexto passou a resolver a leitura.
Por que ideia e heroico perderam o acento?
Porque o Acordo retirou o acento dos ditongos abertos em palavras com força na penúltima sílaba, o que também vale para assembleia, jiboia, voo e leem. Em palavras com força na última sílaba o acento continua, como em herói, papéis e troféu.
O que o Acordo Ortográfico não mudou?
A pronúncia, o significado das palavras e a escolha entre esse e zê, xis e che, gê e jota, que vêm da história de cada palavra. Crase, concordância, regência e pontuação também ficaram fora: um deslize nelas é falha de gramática, não de ortografia.
Onde consultar a grafia oficial de uma palavra?
No Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, publicado pela Academia Brasileira de Letras, com consulta aberta no site da entidade. Ele registra grafia, classe gramatical e flexão, e não traz definição. Para significado, o caminho é o dicionário de uso.
O Acordo unificou a escrita entre Brasil e Portugal?
Não. Ele aproximou as duas grafias e admitiu dupla grafia onde a pronúncia difere entre os países, mantendo formas distintas válidas em cada um. Diferenças de vocabulário, de construção de frase e de uso de pronomes seguem intocadas, porque não são matéria ortográfica.
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