A regra · Guia

Ortografia: o que o Acordo de 1990 mexeu, o que ele não mexeu e onde conferir

Grafia · Leitura de 4 minutos

Um dicionário de mesa fechado, visto pelo corte das páginas, sozinho numa superfície de papel claro e frio, sob a luz calma de manhã cedo que entra pela esquerda, com sombra macia caindo pra direita e o vermelho de revisão como única cor viva

Ortografia é a parte da escrita que trata da grafia das palavras: quais letras entram, onde vai acento e onde vai hífen.

Quase toda dúvida de grafia no Brasil de hoje cai numa de três frentes, e as três foram mexidas pelo Acordo Ortográfico de 1990, em vigor obrigatório no país desde 2016.

As frentes são o trema, o acento diferencial e o hífen. Fora delas, o Acordo mudou muito pouco, e a confusão entre o que mudou e o que ficou é a origem da maioria das dúvidas.

Cada seção abaixo traz a regra primeiro, o teste que você aplica na próxima palavra e a fonte que registra a grafia.

O trema saiu, com uma exceção que continua de pé

A regra: o trema deixou de existir nas palavras portuguesas. Escreve-se linguiça, sequência, tranquilo, cinquenta, frequente, aguentar.

A exceção está escrita no próprio Acordo Ortográfico de 1990: o trema permanece em nome próprio estrangeiro e nos derivados dele.

Müller, mülleriano, Bündchen, Hübner.

A queda do trema mexeu na escrita e não mexeu na pronúncia. O "u" de linguiça continua sendo pronunciado como sempre foi, e o sinal que sumiu apenas deixou de avisar.

O teste de bolso: se a palavra é portuguesa, escreva sem trema e siga em frente. Se ela veio de um sobrenome estrangeiro, o trema fica.

O acento diferencial: o que caiu e o que ficou

A regra: o Acordo Ortográfico de 1990 derrubou quase todos os acentos que serviam só para separar palavras iguais.

Caíram os acentos de para, pelo, pera e polo. Hoje o verbo e a preposição se escrevem do mesmo jeito, e o contexto resolve a leitura.

A moto para na esquina.
Fui até a esquina para comprar pão.

Ficaram dois casos, e são obrigatórios. O primeiro é pôde, do pretérito, contra pode, do presente. O segundo é pôr, o verbo, contra por, a preposição.

Ela não pôde vir ontem.
Ela não pode vir hoje.

Um caso é facultativo: fôrma e forma convivem, e o acento entra quando quem escreve quer marcar o objeto que molda o bolo.

O mesmo Acordo mexeu em outra frente de acentuação, que costuma ser confundida com a diferencial. Paroxítonas perderam o acento nos ditongos abertos e nos encontros de vogais iguais: ideia, assembleia, heroico, jiboia, voo, enjoo, leem, veem.

Em oxítonas o acento continua: herói, papéis, anéis, troféu. A mudança valeu para a palavra com força na penúltima sílaba, e a peça sobre acentuação de paroxítonas trata da conta inteira.

O teste de bolso do diferencial: troque o verbo por "conseguiu" no passado. Cabendo a troca, o acento de pôde fica.

O hífen: a conta é das duas letras que se encontram

A regra central: com prefixo, o hífen entra quando o prefixo termina com a mesma letra com que a palavra seguinte começa, e quando a palavra seguinte começa por "h".

micro-ondas, anti-inflamatório, inter-regional, super-homem.

Sendo as letras diferentes, o prefixo cola na palavra. Diante de "r" ou "s" iniciais, a consoante dobra para manter o som.

autoescola, autorretrato, antessala, ultrassom, contrarregra.

Três grupos continuam com hífen fixo, e o Acordo Ortográfico de 1990 os mantém: os prefixos "sub" e "sob" diante de "r", como em sub-região; "circum" e "pan" diante de vogal, "h", "m" e "n", como em pan-americano; e as formas bem, além, recém, sem, ex, vice e pós, como em recém-nascido e vice-presidente.

As locuções perderam o hífen que tinham: fim de semana, dia a dia, cão de guarda. Um punhado de expressões consagradas ficou de fora da mudança, entre elas cor-de-rosa, mais-que-perfeito e à queima-roupa.

Nomes de planta e de bicho mantêm o hífen: erva-doce, bem-te-vi, joão-de-barro. E alguns compostos antigos viraram palavra única, com paraquedas e paraquedista no lugar das formas com hífen.

O teste de bolso: olhe a última letra do prefixo e a primeira da palavra seguinte. Iguais, hífen; diferentes, junta, dobrando "r" ou "s" antes de vogal.

O que o Acordo não mexeu

O Acordo Ortográfico de 1990 mexeu na grafia e parou ali. A pronúncia continua a mesma, e nenhuma palavra mudou de sentido por causa dele.

A escolha entre "s" e "z", entre "x" e "ch", entre "g" e "j", entre "ss", "ç" e "sc" também ficou como estava. A grafia dessas letras vem da história de cada palavra e não sai de regra produtiva nenhuma.

análise, azedo, enxame, enchente, viagem, viajem, ascensão.

Crase, concordância, regência e pontuação estão fora do alcance do Acordo. Um deslize em qualquer uma delas é falha de gramática, e não de ortografia, ainda que o nome popular junte tudo no mesmo saco.

O teste de bolso: pergunte se a dúvida é sobre a letra ou sobre a frase. Sendo a letra, a resposta está no vocabulário oficial; sendo a frase, a resposta está na gramática.

Onde a grafia oficial mora e como consultar

A regra: no Brasil, a grafia oficial de uma palavra é a que está no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, o VOLP, publicado pela Academia Brasileira de Letras e com consulta aberta no site da entidade.

O VOLP registra a grafia, a classe gramatical e a flexão. Ele não traz definição, e a ausência de definição é o que separa a consulta de escrita da consulta de sentido.

Os dicionários de uso, como Michaelis, Houaiss e Aurélio, trazem grafia e sentido juntos, com as acepções numeradas. Eles são o caminho quando a pergunta é o que a palavra quer dizer.

O teste de bolso: dúvida de como se escreve vai ao VOLP. Dúvida de o que significa vai ao dicionário. A confusão entre as duas consultas custa mais tempo do que a dúvida original.

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Na próxima palavra que travar a sua frase, o caminho tem duas paradas e nenhuma delas é a memória. Aplique a conta das duas letras se houver prefixo, e abra o VOLP se a letra do meio for a dúvida.

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